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terça-feira, 16 de novembro de 2010

Dia 53 – Dá trabalho!

Capítulo 8 – A preservação do Self: A identificação de armadilhas, arapucas e iscas envenenadas

Conto: Os Sapatinhos Vermelhos
(Link para a história completa no menu à direita)

Armadilha n° 2: A velha secarrona, a força senescente

“Somos influenciados por inúmeros coletivos, tanto pelos grupos aos quais nos associamos quanto por aqueles dos quais não somos integrantes. Sejam os grupos que nos cercam de natureza acadêmica, espiritual, financeira, profissional, familiar, quer de alguma outra natureza, eles impõem poderosas recompensas e punições a seus membros e aos não-membros com idêntica aplicação. Eles operam de modo a influenciar e controlar todas as áreas possíveis — desde os nossos pensamentos até a nossa escolha de parceiros e o trabalho da nossa vida. Eles podem também depreciar ou desestimular os esforços que não se harmonizem com as suas preferências.”

É senso comum pensarmos que é a nossa sociedade que molda os indivíduos. Concordo em parte. De fato, um indivíduo é resultado das inúmeras experiências e aprendizados que teve durante a vida, e é o mundo à nossa volta que dita quais experiências são possíveis ou não. Mas por outro lado o ser humano é um universo em si próprio, e é ele quem vai decidir quais escolhas vai ter e que decisões tomar.

Um exemplo: um grande amigo meu sempre teve o sonho de morar isolado do mundo, num monastério. No Brasil, por não participar de nenhuma ordem religiosa, isso seria extremamente complicado, se não inviável. A sociedade que ele faz parte estava limitando as experiências que ele poderia viver. O que ele fez? Saiu do Brasil e foi morar na Índia, onde uma das coisas mais comuns é você conseguir se isolar do restante do mundo e ir morar numa comunidade onde seus membros vivem isolados, rezando e trabalhando.

Mas esse meu amigo só conseguiu achar uma forma de realizar o seu sonho, porque desde muito novo já mostrava muita independência em relação aos valores vigentes. Concordam comigo que se ele fosse uma pessoa padrão, ele estaria preocupado em atingir as metas que nossa cultura nos ensina serem aceitáveis? Trabalharia para pagar suas contas, procuraria estabilidade financeira e status social, consumiria produtos, casaria, teria filhos, e assim por diante. A única forma de ele seguir os seus desejos mais profundos não foi indo para a Índia, mas sim foi se desligando dos valores que todo o coletivo ao seu redor entendia como corretos.
E isso dá um trabalho desgraçado. Vocês têm idéia do quanto trabalhoso é manter sua mente pensante independente do padrão?

Eu como mulher sinto a pressão dos valores dominantes o tempo inteiro, do momento que eu acordo até a hora de ir dormir. Eu acordo e vejo meu irmão espatifado no sofá da casa da minha mãe esperando que ela coloque o seu café da manhã na mesa. Eu saio do meu apartamento e o porteiro faz questão de vir correndo para abrir a porta para mim. Quando entro no metrô uma série de homens engravatados olham para o meu discreto decote e não para o meu rosto. Eu chego no trabalho e vejo meu chefe me tratando como sua secretária particular. Quando meu colega chega, ele faz questão de pagar pelo meu café. Quando saio do trabalho sempre perguntam se eu não quero companhia na volta para casa porque está escuro e tarde e bem, como eu não me sentiria mais segura com um homem ao meu lado? Quando vou ver o meu namorado ele faz questão de me buscar de carro em casa, de me levar para jantar, pagar a conta e me levar para dormir na cada dele.

As pessoas que me conhecem me acham muito revoltada com a vida. Mas gente, se eu não me revoltar com cada um desses acontecimentos, se eu me desacostumar a achá-los infundados, se eu não me mantiver firme em não aceitar ser bancada, ou pelo menos pensar o quanto acho esses valores absurdos, uma hora o coletivo me vence. E quando vejo já estou achando tudo normal e aceitando os valores da maioria. Sim, dá trabalho.

Quando eu decidi tornar a minha filosofia feminista uma prática na minha vida, eu nem imagina contra tudo o que eu teria que lutar. Não são lutas grandiosas e intelectuais não. São pequenas batalhas todos os dias, o tempo inteiro.

Quero que vocês imaginem por um só instante a minha vida de solteira. Porque um namorado me conhece e me ama pelos meus valores, mas um cara que eu acabei de conhecer, ainda não. O meu desespero já começa na hora da paquera. Porque raios para uma paquera dar certo eu tenho que esperar que eu seja xavecada, sorrir e dar risadinhas alegres enquanto escuto um bilhão de frases prontas e uma conversa fútil de um cara querendo se auto promover? Não. Tive que tirar da minha vida a opção conhecer caras na noite. Eles costumam ser padrão, usam um esquema padrão para se aproximar, e até a conversa é padrão. E primeiro encontro? Meus deus do céu que sufoco! Ficar horas na frente de um cara num restaurante sofisticado escutando mais auto-promoção, esperando pelo momento em que ele vai pedir a conta e tentar o primeiro beijo. Não! Abandonei os primeiros encontros.

Descobri que para não aceitar esse padrão machista de sedução eu deveria continuar conhecendo os homens como eu conheço: nos meus meios sociais, com conversas interessantes, e o apaixonamento deve ser mútuo e natural, sem nenhuma situação forçando os dois a se conhecer.

O mesmo vale para quando decidi ser vegetariana, atéia, pró amor livre e pró escolha. O mesmo para quando optei por largar a faculdade, arrumei um emprego de ‘peão’, fui morar com meu namorado sem casar, etc. Se você tem valores diferentes dos valores da sua cultura, sabe a dificuldade que é colocar tudo o que você acredita na vida prática, moldando seu comportamento em cima deles. Porque não vivemos sozinhos. Vivemos nos relacionando com os outros. E se esses Outros têm valores diferentes dos seus, o negócio é saber se manter firme diante de conflitos constantes.

“Obedecer a um sistema de valores tão desprovido de vida provoca uma perda extrema de vínculo com a alma. Independente de quaisquer influências ou afiliações com grupos, nosso desafio em defesa da alma selvagem e do nosso espírito criador consiste em não nos fundirmos com o coletivo, mas em nos distinguirmos dos que nos cercam, construindo pontes até eles à nossa escolha. Nós vamos decidir quais pontes irão se solidificar e ter muito movimento, e quais permanecerão em esboço e vazias. E os grupos com os quais devemos nos relacionar serão aqueles que proporcionarem maior apoio à nossa alma e à vida criativa.”

Sim, minha vida seria muito mais fácil se eu cedesse. Sim, teria menos trabalho, menos conflitos, menos dilemas. Provavelmente mais amigos, mais namorados, maiores chances de emprego. Mas a que preço?

“Se nos afastarmos da nossa vida real e pulsante e entrarmos na carruagem dourada da velha senhora sem vida, estaremos na verdade adotando a persona e as ambições dessa frágil perfeccionista. Então, como todo animal em cativeiro, caímos numa tristeza que leva a uma anseio obsessivo, muitas vezes caracterizado como uma inquietação sem nome. Daí em diante, corremos o risco de nos agarrar à primeira coisa que promete fazer com que voltemos a nos sentir vivas.”

“É importante que mantenhamos os olhos abertos e que consideremos com cuidado as ofertas de uma existência mais fácil, de uma estrada sem problemas, especialmente se nos for pedido em troca que entreguemos a nossa própria alegria criadora a um forno crematório em vez de aquecê-la num fogo criado por nós mesmas.”


Lição do Dia: feliz por todas as batalhas que não cedi, e lembrando os preços que paguei quando acabei cedendo.

Pendências: pela primeira vez na vida consegui viver um mês inteiro com meus gastos e ganhos super controlados! Muito orgulhosa de mim mesma, muito! Por outro lado nunca tive tanta noção de como ganho pouco...

Leia o conto Os Sapatinhos Vermelhos completo: http://querocorrercomoslobos.blogspot.com/p/os-sapatinhos-vermelhos.html  

Escreva para a Vero: eueoslobos@gmail.com

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Dia 39 – Uma mão amiga

Capítulo 6 – A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma bênção

Conto: O patinho feio

O estranho que passava

“A pessoa que talvez pudesse nos tirar do gelo, que talvez até mesmo nos libertasse em termos psíquicos da nossa insensibilidade, não vai necessariamente ser aquela a cujo grupo pertencemos. Pode ocorrer, como na história, mais um daqueles acontecimentos mágicos porém efêmeros que surgem quando menos esperamos, um ato de gentileza de um estranho que passava.”

Esse assunto é um dos meus temas prediletos para jogar conversa fora quando estou numa mesa de bar. Você já recebeu a visita na sua vida de um estranho que te trouxe uma orientação ou uma ajuda, e que sumiu logo depois? Isso já aconteceu comigo umas três ou quatro vezes. É de arrepiar quando eu me lembro. Ainda mais por não ser religiosa, não acreditar em anjos e coisas do tipo. A explicação que eu dou para esse tipo de coisa é: uma pessoa olha para a gente e, de alguma forma, nos lê, nos entende e se conecta, causando uma experiência humana inesquecível.

Experiência 1: Eu tinha 20 anos de idade e namorava o cara que viria a ser meu primeiro marido. Na época eu estava sentindo uma paixãozinha por um colega de trabalho, que percebia e me tentava todos os dias. Eu não parava de pensar nas minhas escolhas: devo deixar de fazer algo que quero muito por causa das convenções sociais? Devo abrir mão de uma experiência gratificante e pessoal, por causa de outra pessoa? Vale a pena arriscar o meu relacionamento por uma paixonite? Se for só sexo, que mal faria?

Um dia, eu caminhava para o trabalho e um senhor de seus 60 anos para ao meu lado na calçada e começa e dizer o quando eu era bonita. Putz, levar cantada às 7 da manhã de um senhor é o fim, pensei eu. Não satisfeito, ele resolve continuar a conversa caminhando ao meu lado. Resumindo, o que ele me disse foi o seguinte: ‘Não estou te elogiando como homem sabe menina, estou te elogiando como um velho que não teve filhos, imaginando que se eu tivesse, gostaria que ele se casasse com uma menina como você. Infelizmente a vida não me deu descendentes para eu poder compartilhar minha experiência! Mas quando eu te vi, não pude evitar parar e te dar um conselho. Se tem uma coisa que eu acho que é a lição mais importante para os jovens é: só faça sexo se for com amor. Não troque sexo carinho, repeito e amor por uma noitada! Não faça sexo com quem não se interessa pela sua alma. Exija do cara com quem você for dormir, a se interessar por você por inteira. Não exija menos do que isso!  Não se machuque nem estrague a sua vida por um momento de prazer.’ Depois de dizer isso o senhor simplesmente virou em uma esquina e foi embora.

Até hoje eu não consigo explicar: quem foi esse estranho que veio me aconselhar exatamente sobre o assunto que eu precisava? Nem preciso dizer que depois disso, a cada investida do colega de trabalho eu me lembrava automaticamente das palavras do velho.

Experiência 2: Quando eu me sinto acuada diante da vida e não consigo identificar aonde está o problema, eu jogo tudo para o alto na tentativa de começar tudo do zero. É uma tendência que eu tenho super difícil de se controlar. Foi o que fiz naquela época: larguei o namorado, larguei o trabalho, larguei o apartamento em que eu estava, larguei a faculdade. Me rebelei contra tudo e contra todos! Não queria ver ninguém, não queria conversar com ninguém. Arrumei um bico qualquer para fazer e escolhi o horário da madrugada. Já que eu não conseguia dormir mesmo, minha insônia pelo menos me renderia um salário. A única coisa que eu conseguia fazer era trabalhar e dormir. Abandonei todos os planos e comecei a viver com um salário mínimo. E não ligava! Ganhava por dia, e gastava tudo no mesmo dia. Até então eu não sabia que estava vivendo o auge do que a minha terapeuta chamaria mais tarde de limbo psicológico.

Eu trabalhava numa casa de shows de comédia stand up. Numa noite, enquanto eu organizava a fila de entrada, uma garota que era claramente uma prostituta entra na fila. Nós tínhamos regras rígidas para impedir que as profissionais se misturassem com os nossos clientes. O pessoal ia lá para rir, e não para pagar por companhia. Perguntei educadamente se ela tinha mesa reservada ou se esperava mais amigos. Ela disse que não. Perguntei gentilmente se ela pretendia entrar sozinha. Ela olhou bem nos meus olhos com um semi sorriso nos lábios e disse: ‘Sim, estou sozinha. E sim, sou uma garota de programa. Vim assistir um show de comédia e me divertir um pouco, porque quando eu sair daqui o trabalho começa e a minha vida não é nem um pouco engraçada’.

Deixei ela entrar, um pouco surpresa. Ela pegou um lugar no balcão do bar, assistiu o show inteiro, e gastou bastante entre o jantar e os drinks. No final da noite ela veio se despedir antes de ir embora: ‘Obrigada por ter me deixado entrar. Eu entendo que as regras são feitas para serem cumpridas e mesmo assim você passou por cima delas. Só queria te dizer uma coisa: o seu lugar não é aqui! Não sei o que passa pela sua cabeça, não sei o que fez você vir para cá, mas você não pertence a essa vida que está levando. Você não é como eu, você tem potencial para fazer o que bem entender, então deixa de ser idiota e comece a fazer o que é necessário para ser feliz!’. E simplesmente foi embora...

Gente, eu levei um esporro de uma garota de programa que me conhecia há menos 2hs! E o pior é que o que ela me disse foi um tapa na minha cara! Essa conversa mudou alguma coisa dentro de mim. Não sei quem era ela, o que ela queria, nem porque raios perdeu o seu tempo vindo falar comigo. Mas foi por causa daqueles 2 minutinhos de bronca, que eu resolvi que não queria mais aquela vida para mim. E fui procurar ajuda.

“Não estamos falando agora de contos de fadas, mas, sim, da vida real. Qualquer que seja, é um tempo em que o espírito, de um modo ou de outro, nos sustenta, nos puxa do fundo, nos mostra a passagem secreta, o esconderijo, o meio de escapar. E essa chegada quando estamos por baixo e nos sentimos numa tempestade sombria ou numa calmaria sinistra é o que nos empurra pelo canal que leva ao próximo passo, à próxima fase no aprendizado de ganhar força no isolamento.”

Todos os meus amigos têm histórias desse tipo para contar! A sensação que tenho, é que acontece com quase todo mundo em algum momento da vida. E vocês, já receberam a visita de um estranho que passava?


Lição do Dia: agradecendo os conselhos que chegaram até mim.

Pendências: aproveitando o feriado para abrir caixas antigas e limpar os ambientes.

Escreva para a Vero: eueoslobos@gmail.com

sábado, 23 de outubro de 2010

Dia 30 – Homens que choram

Capítulo 5 – A caçada: Quando o coração é um caçador solitário

Conto: A Mulher-esqueleto: Encarando a natureza de vida-morte-vida do amor

As primeiras fases do amor: A doação da lágrima

“Quando se chegou até esse ponto no relacionamento com a natureza da vida-morte-vida, a lágrima vertida é a lágrima da paixão e da compaixão combinadas, por si mesmo e pelo outro. É a lagrima mais difícil de ser derramada, especialmente para os homens e certos tipos de mulheres ‘calejadas pela vida urbana’.”

“Tão certo quanto o fato de a Mulher-esqueleto vir à tona, agora essa lágrima, esse sentimento no homem, também chega à superfície. Ela é uma aula de amor a si mesmo e ao outro. Despido, agora, de todos os espinhos, anzóis e facas do mundo diurno, o homem atrai a Mulher-esqueleto para deitar-se ao seu lado, para beber e se nutrir com seu sentimento mais profundo. Nessa sua nova forma, ele é capaz de saciar a sede do outro.”

Quando li essa parte da história, quem teve vontade de chorar fui eu! Hehe! Primeiro porque me lembrei de todas as amigas mulheres que se envolveram com homens que não conseguiam chegar até essa última etapa das primeiras fases do amor: a doação da lágrima. Muitas delas fizeram tudo o que era necessário, se doaram, cederam, apertaram suas mãos, deram apoio, mas nada dessa lágrima vir. O que também me deu vontade de chorar foi ver que muitas mulheres empacam nesse mesmo problema. Muitas tentam viver vestindo a roupa do personagem da mulher ideal e esquecem que elas devem dar à seu parceiro a lágrima de suas próprias feridas.

“A lágrima de quem sonha surge quando aquele que virá a ser um amante se permite sentir seus próprios ferimentos e curá-los, quando ele se permite ver a auto-destruição provocada pela perda da sua fé na bondade do self, quando ele se sente isolado do ciclo protetor e revitalizante da natureza da vida-morte-vida. É então que ele chora, por sentir solidão, uma imensa saudade daquele local psíquico, daquele saber primitivo. É assim que o homem se cura, e que aumenta sua capacidade de compreensão. Ele assume a função de criar seu próprio remédio; ele assume a tarefa de alimentar o ‘outro extinto’. Com suas lágrimas, ele começa a criar.”

Em relação ao homem bloqueado tenho muita pena que talvez nunca na vida eles sejam capazes de se entregar ao verdadeiro amor. Às mulheres que estão com eles, fico triste porque muitas vezes só descobrem esse bloqueio no parceiro anos depois. Fiquei triste por mim, por perceber agora que eu sou uma dessas mulheres ‘calejadas pela vida urbana’, e que não foi em todos os relacionamentos que eu consegui verter essa lágrima.

“Talvez não exista nada que uma mulher deseje mais de um homem do que a atitude de ele desmanchar suas projeções e encarar seu próprio ferimento. Quando o homem enfrenta seu ferimento, a lágrima surge naturalmente, e suas lealdades internas e externas se tornam mais fortes e definidas. Ele se transforma no seu próprio curandeiro. Não se sentirá mais solitário à procura do Self profundo. Ele não mais procura a mulher para ser seu analgésico.”

Essa expressão ‘analgésico’ chega a ser cretina! Como alguém pode usar outra pessoa como remédio para dor? Eu contei aqui para vocês outro dia que um ex-namorado meu começou a sair comigo porque estava arrasado com o seu divórcio. Ele dizia que estava tudo bem, vivia como se estivesse tudo bem, mas depois de apenas algumas semanas eu comecei a perceber que não, não estava tudo bem. Ele levava a vida sem esperança, vivia um dia após o outro, era como uma folhinha no vento esperando para ser levada. Ele havia perdido a esperança na vida, havia desistido dos seus sonhos, do amor até. E ele queria ficar comigo porque dizia que eu trazia uma sensação gostosa de alívio.

No começo isso até me vangloriou. Puxa, ninguém nunca havia visto em mim uma espécie de salvação! Depois isso começou a me deixar um pouco angustiada: sou merecedora de tudo isso? Mais tarde, comecei a ficar irritada: ‘Oi, olha, a Vero tá aqui, eu sou uma pessoa única, não quero ser alívio de ninguém, quero que você me ame pelo que eu sou e não pelo que eu te ofereço!’. Eu gostava muito dele, entendia a sua dor, queria que ele melhorasse! E aos poucos ele começou a abrir o seu coração. Um dia acordou no meio da noite e me contou o pesadelo, depois começou a me contar a história do seu casamento, das brigas, das discussões, de como terminou. Contou-me de sua depressão, da perda de peso, dos remédios.

Algumas semanas depois, ele já conseguia falar sobre esse assunto rotineiramente. E eu sentia um peso saindo dos ombros dele, sentia que ele estava genuinamente mais feliz, mais saudável, mais confiante. Começou a fazer planos, voltou a ter sonhos, nossa, era um outro homem! Até que um dia ele me contou de uma cena que o acompanhava todos os dias, todos os momentos, até durante o sono: a tentativa de suicídio da ex-esposa.

Nessa hora eu percebi que não ia vir dele a vontade de se curar. Ele não permitia que ninguém, nem seu terapeuta, tocassem esse momento da vida dele. Ele não permitia que esse assunto fosse trabalhado. Não era a hora. Eu acredito que as pessoas sempre dão o que elas têm para dar. E ele me deu o que ele tinha. Mais do que isso não tinha como. Como as pessoas podem dar mais do que elas têm? Infelizmente, para mim não foi o suficiente.

Todas as vezes que me lembro dele torço para que ele tenha encontrado uma nova mulher e que, ao seu lado, finalmente consiga verter a lágrima para a sua própria cura!

“Quando o homem verte a lágrima, é que ele se deparou com a própria dor; e ele a reconhece ao tocá-la. Ele percebe como sua vida foi vivida de forma protegida em virtude do ferimento. Percebe tudo o que perdeu na vida devido ao ferimento. Vê como cerceou seu amor à vida, a si mesmo e ao outro.”


Lição do Dia: lembrando do passado e aceitando que às vezes não é a hora.

Pendências: hoje fiz uma consulta com uma homeopata. Gente finíssima! Sentia falta desse tipo de médico que, além de pedir exames, te pergunta com o que você sonha e como anda a sua vontade de comer doce...

Escreva para a Vero: eueoslobos@gmail.com

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Dia 2 - Por que esse livro?

Alguns amigos meus estão me perguntando por que raios eu estou me apoiando no livro “Mulheres que Correm Com Os Lobos” para sair do limbo psicológico em que estou.

Bom, em primeiro lugar, eu sempre fui uma garota tipicamente urbana e cosmopolita. O que quer dizer, que a minha vida sempre girou em torno das tarefas do dia-a-dia, dos compromissos sociais e profissionais, e na tentativa de criar um plano para “uma vida de sucesso”.

Sempre vivi em bairros extremamente urbanizados, dentro de uma das maiores cidades do mundo: São Paulo. Sou extremamente agitada, estressada e ansiosa e, sinceramente, não sei mais dizer se são características minhas, ou se absorvi o clima da cidade louca em que moro. Minha agenda está sempre cheia, meus compromissos sempre encavalados, sempre tenho uma lista interminável de tarefas a cumprir, pessoas para ver, coisas para comprar. E o pior é ter que fazer tudo isso, sempre atrasado por causa do trânsito, no meio do barulho das ruas, da fumaça dos carros, do lixo do chão, sem ao menos conseguir caminhar reparando na paisagem ou sequer olhando para as pessoas.

Lembro de um professor meu que dizia que em São Paulo as pessoas andam olhando para o chão, não conseguimos reparar com detalhes em mais nada que esteja a mais de 100 metros da gente. E não olhamos para as pessoas, simplesmente trombamos com elas.

A agitação cultural de São Paulo é, na minha opinião, um fator puta estressante. Sempre tenho a sensação de que não estamos aproveitando tudo o que devemos! Temos exposições para acompanhar, filmes para assistir, livros para ler, shows para ir. Nossa vida social nunca é agitada o suficiente, precisamos estudar mais línguas, aproveitar mais os parques, conhecer novos restaurantes, malhando mais, comer melhor, freqüentar tais casas noturnas e ir a festas imperdíveis... Ahhhhhh!

E o mais impressionante, é que todos ao meu redor estão do mesmo jeito. Meus amigos vivem no mesmo ritmo que eu, todos workaholics, todos acelarados, todos sempre cheios de coisas que eles “têm que fazer” e que “devem realizar”.

E quando você fica “doente” das suas emoções no meio de tudo isso, o que você faz? Para quem pedir ajuda? Com que tempo vou me tratar?

Depois de tanto tempo vivendo assim, eu simplesmente perdi o contato comigo: sou uma estranha para mim mesma. Meu corpo é apenas a embalagem das minhas angústias, meu cérebro é apenas a máquina que organiza minha rotina, meu coração é apenas um orgão que bate mais forte no início de mais uma história confusa de amor, no meio dessa cidade grande.

São Paulo também é a capital dos tratamentos. Acumpuntura, homeopatia, florais, livros de auto-ajuda, psciólogos, psquiatras, grupos de ajuda, ongs... temos muito disponível para nos ajudar a não surtar, a não adoecer. Mas no final das contas, quando começamos esses tratamentos, eles viram apenas mais um compromisso no meio da nossa agenda. Ou mais um dos objetivos que vamos deixando para quando tivermos mais tempo ou mais dinheiro.

Minha terapia foi minha âncora de salvação no meio dessa tempestade. Mas o que acontece? Depois de um ano de muito aprofundar, perceber, sentir, falar, eu tive uma recaída. Exatamente 12 meses depois do início do tratamento, eu volto a me espatifar no fundo do poço do limbo psicológico. Foi então que eu percebi que não ia conseguir melhorar enquanto não fizesse uma revolução na minha vida. E que isso só seria possível, com uma verdadeira revolução no meu comportamento.

O livro “Mulheres Que Correm Com Os Lobos” me deu de presente o clique que eu precisava: não vou melhorar enquanto eu não me resgatar! Não vou melhorar enquanto eu não conseguir viver, em vez de sobreviver. Preciso voltar a vivenciar cada minuto da minha vida, voltar a sentir prazer com pequenas e grandes coisas, sentir com o corpo inteiro cada uma das minhas emoções, esvaziar a cabeça das responsabilidades inúteis e usá-la para desenvolver a minha criatividade, me sentir inteira, única, entender meus desejos, ser eu mesma.

Não sei mais o que é, por exemplo, tomar um banho relaxante ou curtir uma refeição. Perdi totalmente o controle do meu ciclo mesntrual, e não percebo mais nem quando estou pegando um simples resfriado. Semana passada eu estava com algum sintoma? Será? Não percebi.

“Quando perdemos contato com a psique instintiva, vivemos num estado de destruição parcial, e as imagens e poderes que são naturais à mulher não têm condições de pleno desenvolvimento. Quando são cortados os vínculos de uma mulher com sua fonte de origem, ela fica esterelizada, e seus instintos e ciclos naturais são perdidos, em virtude de uma subordinação à cultura, ao intelecto ou ao ego – dela própria ou dos outros” Introdução, página 23.

O fato de eu estar inspirando minha revolução pessoal nesse livro é porque ele me trouxe o diagnóstico do meu problema original: eu me perdi.

E agora vou me encontrar!

Lição do dia: entendo que a única coisa que "tenho que fazer" e que "devo realizar" é o meu próprio resgate.