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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Dia 85 – 6º dia da Dieta Mental

Depois dessa pausa de um pouco mais de um mês que fiz da terapia e da auto-terapia (blog) e com o fim da minha semana de Dieta Mental, estou voltando com tudo à minha antiga vida social. Essa foi a semana de rever amigos queridos que não via desde o ano passado, marcar almoços, jantares, e cafés durante os dias úteis, bolar programas bacanas para o final de semana. E é engraçado como depois de um tempo afastadas nós já voltamos com outros olhos ao nosso grupo social, não é mesmo?

Dois amigos meus, uma mulher incrível e um ex namorado muito querido, estão com o que eu chamo de síndrome de gato. Sabe quando os gatos estão meio de saco cheio da gente, e só se aproximam depois de muito esforço nosso, e ainda só para receber um cafuné? E qualquer tentativa nossa de se aproximar demais, eles ficam extremamente ariscos, se não agressivos? Pois é, esses dois amigos meus estão se comportando exatamente dessa maneira.

Isso me lembrou da primeira vez que tentei fazer um período sabático na minha vida, e recebi muitas críticas dos meus amigos por estar ‘evitando’ os encontros sociais. Será que é o caso desses dois amigos meus? Os dois estão com grandes dilemas profissionais e estão passando por momentos de crise em seus relacionamentos amorosos. Nada mais justo que eles precisem de um tempo só para eles, onde possam repensar a própria vida e tomar decisões importantes. O que de fato me deixou chateada nessa situação é que eu estou aqui, cheia de amor pra dar, louca para que eles peçam meu colo ou meu ombro emprestado. Como amiga, gostaria que eles buscassem meus conselhos nesse momento difícil e permitissem que eu fizesse parte também dessa dor. Afinal, bons amigos não compartilham apenas as alegrias, não é mesmo?

Mas aí eu percebi que esse desejo de ser a escolhida é um desejo do meu ego de querer ser reconhecida pela minha experiência de vida, e de ter os meus conselhos e opiniões considerados válidos. Logo, no interior de uma atitude altruísta, na verdade eu estava sendo uma baita egoísta!

Então mais uma vez fiquei muito feliz por mim, por ter conseguido freiar o meu impulso de dar um piti no estilo mal amada, e de entender que não, o universo não gira ao meu redor!

Lição do Dia: mais uma vez percebo que estou loooonge da evolução que gostaria de ter, rsrs! Mas assim continuamos, com um olho no ego e outro na alma, um dia após o outro...


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sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Dia 49 – E quando o instinto falha?

Capítulo 8 – A preservação do Self: A identificação de armadilhas, arapucas e iscas envenenadas

Conto: Os Sapatinhos Vermelhos
(Link para a história completa no menu à direita)

A mulher braba

“A mulher braba é aquela que um dia viveu num estado psíquico natural — ou seja, em perfeito estado mental selvagem — e que depois se tornou cativa de alguma reviravolta dos acontecimentos, passando, assim, a ser excessivamente domesticada e amortecida nos seus instintos próprios. Quando essa mulher tem a oportunidade de voltar à sua natureza selvagem original, quase sempre ela é vítima de todos os tipos de armadilhas e venenos. Como seus ciclos e seus sistemas de proteção foram manipulados, ela corre riscos naquele que costumava ser seu estado selvagem natural. Já não mais alerta e desconfiada, ela se torna presa fácil.”

Nessa semana eu encontrei uma amiga que não via há tempos. E fiquei arrasada. Essa amiga era uma das mulheres mais instintivas, belas e criativas que eu já havia conhecido. E ela está numa situação que eu não desejo para meu pior inimigo.

S. sempre foi uma garota das artes. Eu digo garota porque é a mais nova do meu círculo social. Ela peitou a família e os amigos para estudar o que sempre sonhou: artes plásticas. Inventiva, criativa e autodidata ela aprendeu quase tudo o que sabe sozinha: devora livros sobre cinema e teatro, se tranca no final de semana para ler e estudar, aprendeu a falar três línguas sozinhas e viaja. Uma de suas maiores paixões é viajar. Com um salário ridículo ela consegue economizar e rodar o mundo pelo menos duas vezes ao ano. É uma verdadeira cidadã do mundo. Por ser muito independente ela mora sozinha desde a maioridade, paga as próprias contas, e não precisa de ninguém.

Mas S. sempre quis uma coisa mais do que todas: um relacionamento. E era logo isso a única coisa que ela não conseguia construir. Ela era a clássica patinha feia dos relacionamentos que, desesperada por encontrar o seu lugar, só escolhia errado: homens gays, casados, comprometidos, muito novos, muito velhos, ixi, era uma desgraça.

Com o passar dos anos essa solteirice forçada foi minando a sua auto-estima. Ela entrou na espiral de mentir para si mesma, se enganar, negar a realidade. Foi se tornando uma mulher desesperada, histérica, enfadonha. Os amigos aconselhavam, mas ela não queria escutar nada de ninguém. Foi ficando triste e cada vez mais sozinha. As pessoas se afastavam e ela começou a se envolver com cafajestes. Foi se machucando, se ferindo, e cada vez se fechava mais. Nós não sabíamos mais o que fazer.

“Se você alguma vez foi capturada, se você alguma vez sofreu de hambre del alma, uma fome da alma, se você alguma vez se sentiu num alçapão e especialmente se você tem uma compulsão a criar, é bem provável que você tenha sido ou seja uma mulher braba. A mulher braba tem em geral uma fome extrema por algo profundo e, muitas vezes, pode ingerir qualquer veneno disfarçado na ponta de uma flecha, na crença de que ele é aquilo pelo qual sua alma anseia.”

Há alguns meses S. encontra um homem que se aproxima dela por causa do seus gostos comuns pelas artes. Desde a primeira vez que ela me falou sobre esse cara meu instinto me alertou que havia algo errado. Eu não sabia dizer porque, mas me parecia que ele dizia para ela exatamente o que ela queria escutar. Ele estava seduzindo S., e ela não estava percebendo. Não foi uma surpresas quando ela me contou que estava completamente apaixonada, que ele era a sua alma gêmea, a sua metade da laranja, e blá, blá, blá. Só havia um problema: ele estava comprometido com outra mulher. E mesmo assim ela aceitou ser sua amante e vê-lo nas condições e horários que ele escolhia.

Eu não fui a única que achei esse cara com uma índole um pouco duvidosa, todos, mas TODOS os nossos amigos em comum alertaram S. que alguma coisa não cheirava bem. Mas ela negava e negava, dizendo que nunca foi tão feliz. O tempo passa e ela começa exigir que ele termine seu relacionamento. Meses de briga e conflito colocaram o fulano contra a parede e por fim ele decidiu dar exclusividade a S. E começaram a namorar.

Eles já estão juntos há 6 meses agora. E como está o relacionamento? Ele vive trabalhando, nos horários mais bizarros da face da terra, pernoita no escritório, passa o final de semana inteiro dormindo na empresa. Ele desaparece durante dias e não dá notícias da onde está. Ele diz absurdos do seu salário, que ganha na casa de milhares de reais por semana, embora o estilo de vida que ele leva não condiz em nada com esse valor. S. não conhece seus amigos, sua família, seus colegas, não sabe o nome da empresa que ele trabalha nem o que ele faz lá. Ele não dá nenhum detalhe da sua vida pessoal. É claro para todo mundo que esse cara está mentindo. Até aí, vamos ser sinceras: não existe nenhum ser humano que não minta. Mas o que anda nos preocupando é: porque ele mente? Ele está escondendo algo atrás dessas mentiras e é de extrema importância que ela descubra o que é para ver se vale a pena continuar investindo nessa relação.

Mas de nada adianta conversar com ela, ela aceita cada explicação furada e o ajuda a se justificar. Eu encontrei com S. nesse final de semana e não poderia ter sido pior: ela está tão cega, que não vê um palmo diante do nariz. Ela perdeu completamente seus instintos, está vulnerável e indefesa e virou presa para esse homem, sem nem perceber o que está acontecendo.

E infelizmente eu só posso esperar que não importa o motivo que ele tenha para mentir que sua índole não seja tão ruim, que ele não seja um homem mal, e que ele não apresente um risco à sua integridade física nem psicológica. Porque convenhamos, seu emocional já está completamente destruído.

Eu vi essa linda mulher selvagem sendo domesticada, e digo para vocês: isso aconteceu porque depois de um longo período negro em sua vida ela desaprendeu a zelar por si mesma e a de proteger das ameaças da vida.

“Para evitar esses ardis e engodos propiciados pelo tempo que a mulher passa no cativeiro e na fome, precisamos ter a capacidade de prevê-los e de nos desviarmos deles. Temos de voltar a desenvolver o insight e a prudência. Temos de aprender a nos desviar. Para poder distinguir as opções corretas, temos de poder ver as erradas.”


Lição do Dia: lembrando dos momentos que eu já me machuquei em armadilhas que não consegui perceber, e aprendendo com os meus erros passados.

Pendências: já me preparando para a minha costumeira depressão de final de ano já aumentei as sessões de terapia.

Leia o conto Os Sapatinhos Vermelhos completo: http://querocorrercomoslobos.blogspot.com/p/os-sapatinhos-vermelhos.html  

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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Dia 45 – Sobre a sedução

Capítulo 7 – O corpo jubiloso: A carne selvagem

Conto: La Mariposa, a Mulher-Borboleta
(Link para a história completa no menu à direita)

“No entanto, apesar de sua beleza e sua capacidade de manter a força, às vezes falam dos lobos nos seguintes termos: "Ah, vocês têm fome demais; seus dentes são afiados demais; seus apetites são muito interesseiros." À semelhança dos lobos, as pessoas às vezes encaram as mulheres como se apenas um determinado tipo de temperamento, de apetite, fosse aceitável. E com enorme freqüência acrescenta-se a essa atitude a atribuição de correção ou incorreção moral de acordo com a conformidade da forma, do jeito de andar, da altura e do tamanho da mulher em relação a um ideal único e exclusivo. Quando as mulheres são relegadas a disposições de ânimo, a maneirismos e a contornos que se amoldam a um único ideal de beleza e de comportamento, elas se tornam cativas tanto no corpo quanto na alma, não gozado mais de liberdade.”

Mulher e copo. Não existe relação mais óbvia! Peço desculpas se você mulher que está lendo esse texto acha que toda a nossa feminilidade e instinto selvagem vêm do cérebro e das nossas produções intelectuais. Desculpem-me, porque eu discordo. Não existe nada mais feminino e mais selvagem do que o corpo das mulheres. Ele é a síntese da nossa beleza e do nosso instinto.

Nosso corpo é selvagem por natureza. Não é à toa que nas religiões mais loucas da face da terra a primeira coisa que eles querem esconder é o corpo feminino. Porque sabem o poder que ele tem. O poder de continuar com os seus ciclos naturais, não importa o que esteja acontecendo no mundo externo. Podemos estar numa ditadura machista, onde as mulheres não passam de objetos, onde a religião nos impede de ter uma vida selagem, mas lá está o nosso corpo: criando formas na adolescência, exalando ferormônios, menstruando, engravidando, amamentando. Podem tirar o que quiserem das mulheres, mas o nosso corpo vai sempre continuar com o que veio fazer aqui.

Eu acredito que seja por isso que nas sociedades machistas-religiosas o corpo feminino seja tão temido. Ele é insubordinável por natureza. O máximo que eles conseguem fazer é esconder o corpo feminino com uma burca, mas debaixo dela, tudo continuará como a natureza manda.

Eu sempre me emociono quando tenho contato com as antigas religiões pagãs e vejo a devoção que eles tinham pelas nossas formas! O corpo feminino era a representação da Natureza, dos ciclos, da fertilidade, da deusa. Era nele que estava o foco espiritual, era dele que emanava toda a força criativa e doadora!

Com o passar do tempo não apenas as mulheres foram sendo civilizadas, mas seus corpos deixaram de ser vistos como algo divino e passaram a ser vistos apenas como carne. Na minha opinião o padrão de beleza atual é tão artificial de propósito. É como se a sociedade dissesse ‘Ah, você quer ter seu corpo valorizado? Então vão ter que ter o corpo assim! Ah, não dá, né? Então, sinto muito!’. E aí as mulheres vão loucas atrás de dietas, atrás de plásticas, atrás de roupas que mostrem os atributos sexuais que disseram para elas que elas têm.

“Limitar a beleza e o valor do corpo a qualquer coisa inferior a essa magnificência é forçar o corpo a viver sem seu espírito de direito, sem sua forma legítima, seu direito ao regozijo. Ser considerada feia ou inaceitável porque nossa beleza está fora da moda atual fere profundamente a alegria natural que pertence à natureza selvagem.”

Não vou ser aqui aquelas feministas chatas que dizem que todo corpo é bonito. Não, não vou dizer isso porque não concordo. Uma coisa é muito clara para mim: corpo bonito é corpo saudável, gente bonita é gente feliz. Se você está acima do peso e devora pacotes e pacotes de doce na frente da TV para afogar suas mágoas, eu não vou conseguir olhar para você e achá-la bonita. Se você vive de dietas malucas e come com uma calculadora do lado sem sentir prazer com a comida, eu não vou achá-la bonita. Se você se esconde atrás de roupas largas porque não tem o corpo que quer, eu não vou achá-la bonita. Se você só transa no escuro ou debaixo do cobertor, eu não vou achá-la bonita. Se você precisa viver montada na produção, maquiada e bem vestida para se achar atraente, eu não vou achá-la bonita. E mais do que tudo: se você acha que a única forma de seduzir um homem é mostrando o seu corpo, eu não vou achá-la bonita. Porque uma mulher que faz essas coisas é uma mulher muito, mas muito feia.

Já conheci homens muito feios que exalavam um poder absurdo de atração. Você perguntava para as mulheres em volta deles e não havia uma que não quisesse dormir com ele. Por quê? Porque alguns caras são atraentes simplesmente porque são. Eles emanam energia sedutora e sexual o tempo inteiro. E nem percebem que fazem isso, é absolutamente inato à eles.

Então eu fico triste que as mulheres não saibam usar esse mesmo poder. Porque se tem um gênero que ganhou da natureza esse poder de sedução fomos nós! Não importa como você seja, que forma você tem, nós temos o poder para usar o nosso corpo da forma como bem entendemos. Uma mulher poderosa é aquela que está plenamente confortável dentro da sua forma, é uma mulher que sua alma e seu corpo formam uma unidade indivisível. As mulheres modernas precisam exercitar o uso desse poder: nós temos o potencial de seduzir todo e qualquer ser humano, o tempo inteiro e em qualquer lugar que estejamos. Uma mulher é sedutora 24hs por dias, trabalhando, cozinha, pegando um ônibus lotado. Ela seduz as pessoas ao sorrir, ao comer, ao caminhar, ao falar. Nós somos a sedução encarnada!

E para deixar bem claro: eu não me refiro à sedução sexual aqui não. Quando eu falo em sedução eu quero dizer algo muito mais amplo: seduzir é encantar um outro ser humano. E isso não é feito com a sua prótese de silicone, isso é feito com a beleza inata da sua alma.

Cada vez que você acordar de manhã exercite o seu poder de sedução. Seduza cada criança, cada homem, cada mulher que você cruzar na rua. Seduza o cobrador do ônibus, o porteiro do seu prédio, o seu chefe. Seduza enquanto você digita no computador, enquanto você compra no supermercado. Esse é o verdadeiro poder da sedução. A atração sexual vai ser uma conseqüência disso tudo.

Portanto: seja plenamente confortável dentro do seu corpo!

“As mulheres têm bons motivos para refutar modelos psicológicos e físicos que são danosos ao espírito e que rompem o relacionamento com a alma selvagem. É claro que a natureza instintiva das mulheres valoriza o corpo e o espírito muito mais por sua capacidade de vitalidade, sensibilidade e resistência do que por qualquer avaliação da aparência. Esse ponto de vista não pretende descartar aquilo que seja considerado belo por qualquer segmento da cultura, mas, sim, traçar um círculo mais amplo que inclua todas as formas de beleza, forma e função.”


Lição do Dia: lembrando do poder inato ao meu corpo que ganhei da natureza.

Pendências: pedi para o namorado me ajudar num novo projeto meu: parar de reclamar! A regra é a seguinte: quando eu começar com chororô, mimimi, e frases do tipo ‘Porque eu?’ ele vai calar a minha boca com um beijo, olhar nos meus olhos e falar ‘Amor, pare reclamar!’. Aviso aqui dos resultados.

Leia o conto La Mariposa, a Mulher-Borboleta completo: http://querocorrercomoslobos.blogspot.com/p/la-mariposa-mulher-borboleta.html

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quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Dia 41 – Não me julguem

Capítulo 6 – A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma bênção

Conto: O patinho feio
(Link para a história completa no menu à direita)

Os gatos desgrenhados e as galinhas vesgas do mundo

“O gato desgrenhado e a galinha vesga consideram as aspirações do patinho estúpidas e sem sentido. Isso dá exatamente a perspectiva correta quanto à suscetibilidade e aos valores daqueles que criticam quem não é igual a eles. Quem esperaria que um gato gostasse da água? Quem iria pensar numa galinha nadando? É claro que ninguém. No entanto, com enorme freqüência, do ponto de vista do proscrito, quando as pessoas não são parecidas, é o proscrito que é inferior, não o outro.”

Eu vou aproveitar aqui essa bronquinha que Clarissa dá sobre acharmos que as idéias diferentes das nossas são inferiores, para escrever um pouco mais a meu respeito. Já recebi e-mails de leitoras que perguntavam coisas do tipo ‘Mas quantos namorados você já teve?’ ou ‘Porque os relacionamentos são tão importantes para você?’. Respondo agora.

Eu tenho uma alma bastante libertária. Costumo bater de frente com tudo o que tenta ou tende me manter presa ou me doutrinar. Sempre fui assim. Desde muito nova eu achava relacionamentos um negócio engraçado. Lembro que perguntei para a minha mãe com uns 14 anos de idade ‘Mãe porque você é casada com o papai? Não entendo porque vocês estão juntos, não seria mais legal cada um morar na sua própria casa?’. Sim, eu perguntei isso na melhor das intenções. Detalhe: o casamento dos meus pais é um dos únicos que conheci que considero realmente bem sucedido. Imaginem então o susto da minha mãe quando escutou isso. ‘Porque eu amo seu pai e ele me ama, por isso continuamos casados!’, ela respondeu em choque. No que eu logo lancei ‘Mas o que uma coisa tem com a outra? Vocês podem continuar se amando, mas cada um vivendo a sua própria vida!’.

Mas que graça eu era com 14 anos, não? E se eu disser agora para vocês, que as minhas idéias sobre relacionamento permanecem as mesmas desde então? Sim, isso mesmo! Eu ainda considero amor e casamento duas coisas completamente diferentes, embora, muitas vezes, sejam complementares.

Eu não entendo, do fundo do meu coração, porque as pessoas esperam de mim que eu me case com um homem que eu amo. Eu já amei muitos homens, pretendo amar mais vezes ainda, e continuo achando que casamento não tem absolutamente nenhuma relação com o que sinto.

Desde muito nova sempre consegui me envolver afetivamente com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Eu não estou dizendo que eu DURMO com vários homens ao mesmo tempo, estou dizendo que eu me envolvo amorosamente com mais de um. Sei que é difícil para muita gente entender. Vou tentar me explicar melhor.

Situação real que aconteceu no passado: eu estava namorando um homem que eu amava muito, estava me sentindo muito feliz com ele, e orgulhosa da nossa relação. Disponibilizava grande parte do meu tempo para investir nessa relação, e era totalmente correspondida. Mas, eu ainda amava muito o meu ex-namorado, com quem eu terminei por problemas de convivência e não de falta de sentimentos. O que eu sentia pelo meu ex e o vínculo forte que ainda tínhamos não interferia em absolutamente nada no meu relacionamento principal. Muito pelo contrário: namorar um homem que eu amava e ser melhor amiga de outro que eu também amava, me transformava numa pessoa plenamente feliz. E logo, eu era uma namorada muito melhor também. Nunca permiti que uma relação interferisse na outra, ainda mais porque acho que o que eu sinto e com quem me relaciono só me diz respeito e a mais ninguém.

Depois de um ano assim eu conheço um outro cara muito bacana por quem me apaixono. Veja bem: essa paixão, por mais avassaladora que tenha sido, também não interferiu em nenhum dos outros relacionamentos que eu tinha. O mais incrível é que nessa paixão também fui correspondida. E aí surgiu o conflito: se eu deixasse de viver essa paixão eu estaria boicotando minha própria liberdade e meu próprio desejo. Mas, se eu me dispusesse a vivê-la, estaria traindo meu namorado e o magoando. E essa traição seria apenas aos olhos dele, porque na minha opinião se não vai interferir no relacionamento não é traição. Meu amor não diminui se eu me envolvo com outra pessoa.

O que aconteceu? Eu resolvi ser fiel. E tomar essa decisão me machucou tanto, mas me machucou tanto, que meu namoro foi pro saco. Me ligar à apenas um parceiro sempre me trouxe um sentimento de perda terrível, como se eu estivesse boicotando a minha liberdade e podando a parte mais vital da minha vida: os meus amores.

Eu já passei por diversos tipos de relacionamento, inclusive uma tentativa de casamento. Nunca me senti plenamente satisfeita em nenhum deles. Quando estou com um parceiro fixo me sinto realizada e orgulhosa do meu amor, mas não deixo de criar vínculos afetivos e amorosos com outras pessoas. Com cada um desenvolvo um vínculo especial, íntimo e único, e não costumo me relacionar com alguém apenas por sexo.

O que posso fazer então? Há 11 meses fui praticamente forçada a entrar num relacionamento monogâmico pelo meu parceiro, que não entendia meu ponto de vista. Ele, como muitos homens, acham que a fidelidade amorosa das mulheres é prova do seu amor. Atualmente temos uma relação séria e estável, e tentei transformar as outras relações lindas que tinha em apenas boas amizades. E eu sei que essa situação é um efeito estufa para meu relacionamento...

Há tempos quero desabar sobre isso aqui no blog, mas estava meio com medo de julgamentos. Ler esse trecho do livro de Clarissa me fez lembrar que eu não devo justificativas à ninguém, porque cada um vive à imagem e semelhança do que acredita. Eu acredito em amores. Eu não que casamento seja uma opção viável para mim.

Eu quero que nesse momento você que está lendo tente não julgar algo diferente do que você acredita, como pior ou ruim. Escute há décadas repreensões de pessoas próximas dizendo que era imaturidade da minha parte, eram os hormônios, que quando eu ficasse mais velha passava. Fiquei mais velha, não passou. Acusaram-me de revolta, de revolução, de ter a intenção de chocar. Não é. É dessa forma que eu amo. E ponto.

Sei que na sociedade que vivemos a poligamia é absurda e não há espaço para alguém como eu viver plenamente confortável. Mas eu ainda procuro encontrar alguma forma de relacionamento que se encaixe com a minha forma de ser. Por isso me relaciono muito. Por isso não tenho pudores de terminar um relacionamento e começar outro logo em seguida. Digo que estou experimentando e, enquanto faço isso, conheço pessoas maravilhosas, amo muito e intensamente, sou amada da mesma forma, e me melhoro como pessoa cada vez mais.

Já me torturei demais tentando entrar pro clube do gato desgrenhado e da galinha vesga. Não dá. Simplesmente não faz parte de mim.

“Embora a mulher possa parecer desmiolada, quando perdeu o contato com a vida que mais valoriza, e esteja correndo de um lado para o outro tentando reconquistá-la, na maioria das vezes ela está recolhendo informações, provando um pouco disso aqui, agarrando com uma patada um pouco daquilo lá. O máximo que se pode fazer seria explicar sucintamente o que ela está fazendo e deixá-la em paz. Assim que ela processar todas as informações das pistas recolhidas, ela voltará a se movimentar de modo deliberado. E então o desejo de pertencer ao clube do gato desgrenhado e da galinha vesga acabará desaparecendo totalmente.”

Lição do Dia: não permitindo julgamentos do gato e da galinha.

Pendências: conseguindo acordar ainda mais cedo do que na semana passada.


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domingo, 31 de outubro de 2010

Dia 37 – Sobre o desistir


Capítulo 6 – A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma bênção

Conto: O patinho feio

A aparência indevida


“Como o patinho feio, o intruso aprende a evitar situações em que possa agir certo mas mesmo assim dar a impressão errada. O patinho, por exemplo, sabe nadar bem, mas não tem a aparência devida. Por outro lado, a mulher pode ter a aparência perfeita e não conseguir agir corretamente."

Isso acontece com razoável freqüência quando estamos procurando nossa verdadeira família e comunidade. Repetimos para nós mesmas que não vamos nos enturmar com pessoas que não tem afinidade conosco, com nossas idéias, com nossos princípios. Mas como a procura é difícil e longa no meio do caminho já estamos desesperadas, carentes e solitárias ‘Mas não existe ninguém bacana nesse mundo?’, nos perguntamos.

Não entendemos porque pessoas bacanas como nós ainda não encontraram seu verdadeiro grupo. E nessa solidão temos a brilhante idéia de nos juntarmos às pessoas que estão disponíveis e acessíveis para nós. Aí está o erro! Quando resolvemos fazer parte de um grupo que em nada tem em comum com nossa alma selvagem só existe duas saídas prováveis: ou você vai deixar de ser você mesma e agradar os outros até ser desmascarada, ou você vai ser você mesma e desagradar a todo o resto até ser expulsa.

E isso vale para qualquer tipo de interação! Estou falando da escolha de familiares, de amigos, de namorados, de ambiente de trabalho, de cidade para se morar. Qualquer decisão que a gente tome quando estamos dominadas pelos monstros da carência e da solidão, tendem a terminar com sentimentos de frustração e de não pertencimento.

“Na história, o patinho começa agir como um pateta, aquele que não consegue fazer nada certo... ele joga poeira na manteiga e cai no barril de farinha, mas não antes de mergulhar primeiro no latão de leite. Todas nós já passamos por isso. Não conseguimos fazer nada certo. Tentamos melhorar. Em vez disso, pioramos. Não era para o patinho ter entrado naquela casa. Mas isso acontece quando se está desesperado. Vai-se ao lugar errado em busca da coisa errada.”

Que atire a primeira pedra quem nunca fez besteira quando estava dominada pela carência! A minha carência é quase uma segunda personalidade, com vida própria e um pouco maníaca. Só anos depois eu consegui aprender a lição: quando essa minha personalidade carente que quer agradar à todos estiver me dominando, a melhor coisa a fazer é correr para casa, ficar quietinha e esperar o surto passar.

“Embora seja útil abrir canais até mesmo para aqueles grupos aos quais não pertencemos e seja importante tentar ser gentil, é também imperioso não nos esforçarmos demais, não acreditar demais que se agirmos corretamente, se conseguirmos conter todos os impulsos e contrações da criatura selvagem, poderemos realmente passar por damas educadas, recatadas, contidas e reprimidas. É esse tipo de atitude, aquele tipo de desejo do ego de integrar-se a todo custo, que destrói o vínculo com a Mulher Selvagem na psique. E então, em vez de uma mulher vital, temos uma mulher simpática, a quem foram arrancadas as garras. Temos, então, uma mulher bem-comportada, com boas intenções, nervosa, ofegante no anseio de ser boa. Não, é melhor, mais elegante e muito mais profundo ser o que somos e como somos, deixando que os outros também o sejam.”

Se você desistiu de tentar procurar o seu grupo é porque provavelmente já se machucou bastante no processo ou já quase se perdeu tentando ser algo que não é. Se for o seu caso, não desista: você andou batendo apenas nas portas erradas, ainda há tempo de bater na porta certa!


Lição do Dia: ficando de olho no monstro da carência.

Pendências:
Day off para dar atenção ao meu parceiro.

Escreva para a Vero: eueoslobos@gmail.com

sábado, 30 de outubro de 2010

Dia 36 – Você está escolhendo certo?

Capítulo 6 – A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma bênção

Conto: O patinho feio

As más companhias


“O patinho feio vai de um lado a outro à procura de um lugar onde possa repousar. Apesar de não estar plenamente desenvolvido seu instinto para detectar exatamente onde ir, o instinto de vaguear até encontrar o que ele precisa está em perfeito funcionamento. No entanto, ocorre às vezes uma espécie de patologia na síndrome do patinho feio. Continuamos batendo nas portas erradas mesmo depois de más experiências. É difícil imaginar como se poderia esperar que uma pessoa soubesse quais portas são as certas se ela, para começar, nunca chegou a saber o que é uma porta certa. No entanto, as portas erradas são aquelas que fazem com que voltemos a nos sentir proscritos.”

Já escutaram a frase ‘ah, mas eu tenho um dedo podre para homem mesmo’? Pois é. Eu concordo! Embora não chamasse de dedo pobre, porque quem escolhe nossos parceiros somos nós mesmas. Eu diria ‘sim amiga, você escolhe o parceiro errado mesmo’. Tenho alguns casos de amigas próximas para ilustrar:

Amiga 1: começou com o professor da faculdade. Ele não sabia que ela existia. A paixão durou quase 1 ano. Depois veio a se apaixonar pelo terapeuta (sim, o psicólogo dela) que estava noivo de outra mulher. Ele casou, e ela ainda manteve a paixão platônica por mais 2 anos. Em seguida veio o cara com que ela transou pela primeira vez. Eles saíram umas 3 vezes, ele sumiu, e ela esperou por ele por mais 3 anos. Ainda procura pelo príncipe encantado.

Amiga 2: não tinha um tipo específico de cara, transava com qualquer ser com cromosso Y que atravessasse o seu caminho, e tinha orgulho disso. Uma década depois descobre que está carente e resolve arrumar um namorado: 2 caras muito mais novos do que ela, 2 homens gays, e um cafajeste. Finalmente achou um indivíduo digno está feliz da vida. Ok, ele mente um pouco e desaparece sem dar explicações por semanas. Mas puxa, ele pelo menos topou.

Amiga 3: era a amiga mais cotada para casar cedo. Tinha vários pretendentes e um padrão de qualidade inatingível.  Dispensou cada pretendente que apareceu sem nem se dar ao luxo de um primeiro encontro. Ficou sozinha e hoje só sai com caras que digam literalmente que não querem nada sério. Não acredita mais no amor.

Amiga 4: ela sempre preferiu os caras mais novos. Até aí é um gosto pessoal. Sempre dizia que seu lado maternal falava mais alto, e que ela gosta de cuidar dos namorados. Certo. Teve uns 8 namoros na vida, em todos foi ela quem terminou a relação, sempre alegando que o pobre coitado era pouco homem para ela. Sempre surgiam homens interessantes pelo meio do caminho, mas ela recusava, dizia que se sentia intimidade perto de um cara com a vida feita. Ela está entrando na menopausa e desesperada para ter filhos.

Lembrete: resolvi não comentar casos de homens agressivos, violentos, alcoólatras, usuários de drogas, suicidas e maníacos.

“Essa reação ao isolamento é a do tipo ‘procura do amor em todos os lugares errados’. Quando a mulher se volta para um comportamento repetitivamente compulsivo — reencenando um comportamento frustrante, que provoca a decadência em vez de uma vitalidade permanente — com o objetivo de abrandar seu isolamento, ela na realidade está causando mal ainda maior porque a ferida original não está sendo tratada e a cada incursão ela ganha novas feridas.”

“Essa atitude se assemelha à de pingar algum remedinho no nariz quando se tem um talho aberto no braço. Mulheres diferentes escolhem tipos diferentes de "remédio errado". Algumas optam pelo que é obviamente inadequado, como as más companhias, os excessos nos prazeres que são prejudiciais e destrutivos da alma, e tudo que primeiro a incentiva e a coloca lá no alto para depois atirá-la pelo chão.”

Todas as mulheres que citei são extremamente bonitas, inteligentíssimas, bem sucedidas, com grandes carreiras e famílias estruturadas. E então eu me pergunto: como elas agüentam mais dor? Porque todos nós chegamos num ponto que a dor é insuportável, e damos um basta para mudar a situação. Mas me lembro depois que essas mesmas mulheres são as tem o poder da negação encarnados em seus corpos. Elas negam tudo de ruim que acontece na vida delas.

‘Ele me traiu, mas era perfeito!’, ‘Ele não sente mais nada por mim, logo é um cafajeste’, ‘Tudo seria perfeito se aquela vadia não tivesse dado em cima dele’, ‘Eu tenho todos os homens que eu quero, porque preciso dele?’, ‘Ah, fulano? Nem me lembro mais dele’ ou ‘Aquele relacionamento que passei meses chorando? Como eu era uma boba, nem doeu tanto assim!’. Ou, escuto coisas piores: ‘Nenhum homem presta!’, ‘Todos os homens são infiéis!’, “Estou sendo punida pelo universo!’, ‘Minha vida amorosa é amaldiçoada!’.

Essas amigas repetem frases derivadas dessas há anos! Algumas que conheço há mais tempo, há décadas! Querida, a única coisa que eu vejo em comum entre todos os caras da sua vida é terem sido seus namorados! Logo, não existe nenhum problema com o cromossomo Y, o problema só pode estar em você.

Porque você escolhe os parceiros errados para se relacionar?

“Existem diversas soluções para essas más escolhas. Se a mulher conseguisse parar para examinar seu próprio coração, ela veria nele uma necessidade de que suas habilidades, seus dons e suas limitações fossem respeitosamente reconhecidos e aceitos. Portanto, para começar a cura, pare de se iludir com a idéia de que um pequeno paliativo irá consertar uma perna quebrada. Seja franco frente às suas feridas, e assim terá uma imagem correta do remédio necessário. Não jogue no vazio o que for mais fácil ou estiver mais disponível. Faça questão do medicamento adequado. Você o reconhecerá porque ele irá fortalecer sua vida, em vez de enfraquecê-la.”


Lição do Dia: voltando a pensar nas minhas amizades e identificando as frutas podres no meio do cesto.

Pendências: as tarefas ‘acordar mais cedo’ e ‘comer melhor’ foram concluídas com sucesso! Adiciono na minha lista as novas mudanças de hábito: ‘aprender a cozinhar’ e ‘cuidar da saúde’ (marcar o início dos tratamentos).

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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Dia 32 – E a história termina

Capítulo 5 – A caçada: Quando o coração é um caçador solitário

Conto: A Mulher-esqueleto: Encarando a natureza de vida-morte-vida do amor

As fases posteriores do amor: A dança do corpo e da alma

“Às vezes aquele que está fugindo da natureza da vida-morte-vida insiste em pensar que o amor é apenas uma dádiva. No entanto, o amor em sua plenitude é uma série de mortes e de renascimentos. Deixamos uma fase, um aspecto do amor, e entramos em outra. A paixão morre e volta. A dor é espantada para longe e vem à tona mais adiante. Amar significa abraçar e ao mesmo tempo suportar inúmeros finais e inúmeros recomeços — todos no mesmo relacionamento.”

Diversas vezes durante o meu estudo sobre a história da Mulher-esqueleto, fiz analogias com outros setores da nossa vida. De fato, Clarissa nos ensina com essa história mais do que a natureza dos relacionamentos amorosos: ela ensina a atitude que devemos ter diante de tudo o que nos cerca.

Normalmente quem tem dificuldade de aceitar a Morte na vida amorosa enfrenta o mesmo problema com o restante. O mundo de hoje está muito focado nos resultados concretos do amor e do trabalho, nos parceiros e no dinheiro. A ansiedade que sentimos é gerada pela pressão que a cultura exerce para termos resultados fabulosos em pouquíssimo tempo. Ando lendo bastante sobre a cultura do ‘slow life’, que prega a diminuição da velocidade em nossas atividades para que consigamos perceber a vida com os sentidos e não com o cérebro.

Já vi de perto pessoas tomando decisões muito erradas porque estavam focando nos resultados e não no processo. Focando apenas no final das coisas essas pessoas perdiam o próprio sentido de fazê-las. Já vi jovens com currículos acadêmicos impressionáveis, mas que nunca haviam parado para pensar se realmente aquele trabalho era sua vocação. Já vi mulheres namorando, noivando e casando numa velocidade recorde, sem parar para pensar o que de fato sentiam pelo parceiro.

Toda essa busca desenfreada por resultados também nos deixou com uma sensação absurda de vazio. Atingimos determinada meta esperando sentir uma satisfação plena e, quando vemos, ainda não estamos realizados. Partimos para a próxima meta e o sentimento de insatisfação permanece. Cada vez que a vida se transforma numa reta descendente, milhares de pessoas correm para a terapia, para os remédios, para as drogas, para o shopping, para a geladeira. Porque o mundo onde somos cobrados a realizar milhares de coisas não nos ensina a lidar com a frustração, com a queda de energia, com a queda de libido, com a solidão, com o tédio.

Tédio: a doença da moda. Já reparam como facilmente ficamos entediados? É só terminarmos nossas atividades diárias e nos inunda um sentimento de tédio que nos faz parar na frente de uma TV ligada, como zumbis, até o sono chegar. Fui numa homeopata incrível nesse final de semana que me disse que muitas pessoas doentes que chegam no seu consultório, estão com doenças totalmente psicológicas. Claro, você vai fazer o exame e está lá: gastrite, intestino preso, colesterol alto. Mas nada, e eu digo NADA, há de errado com o organismo daquela pessoa. A cabeça dela está estressada, logo o corpo fica estressado também.

O pior é que vamos jogar toda essa ansiedade em cima dos nossos relacionamentos. Nossa vida vira um esquema de trabalhar e se relacionar, e mais nada. Acabamos esperando que no nosso relacionamento vamos ter paz, vamos nos sentir plenas e realizadas. E estamos com tanta pressa de sentir tudo isso, que não nos permitimos curtir cada fase do amor. Não esperamos que o amor seja construído, não, amamos que nem compramos: amo e pronto!

Muitas vezes meus amigos me pedem conselhos amorosos porque eles acham que o número de experiências que tive me confere uma certa credibilidade. O que eu sempre pergunto para eles é ‘O que além de trabalhar e pensar no parceiro vocês fazem?’. A grande maioria não faz mais nada. Não é à toa que os relacionamentos viram o centro de suas vidas: eles jogam toda a sua energia para a relação. Quando a relação termina ou esfria, o mundo inteiro deles cai. Porque eles não tinham nenhuma base sólida para se sustentar e esperavam que o parceiro fosse trazer a tão esperada felicidade todo o sempre.

Eu vivo os lembrando de que se tive vários relacionamentos, e de vários tipos, isso me faz uma especialista em finais e despedidas. E uma verdade que nunca muda é: a minha vida continua, com ou sem o cara que amo ao meu lado. Posso estar machucada, dolorida, ferida, destruída, mas a minha vida continua, querendo eu ou não.

Só vamos conseguir construir um relacionamento como deve ser se tivermos calma, paciência e pararmos de projetar nossos sonhos de sucesso em cima deles. Quando nutrirmos nossa vida com nossas paixões individuais, quando investirmos toda a nossa energia na nossa própria felicidade, dando tempo ao tempo, vivenciando cada fase do amor, aceitando cada ciclo da paixão, cada pico, cada queda.

Essa é a verdadeira receita para aceitar a vida-morte-vida em nossas vidas. Essa é a receita para construirmos relacionamentos duradouros e gratificantes.

“A energia, o sentimento, a intimidade, a solidão, o desejo, o tédio, todos aumentam e diminuem em ciclos relativamente comprimidos. Nosso desejo de proximidade, e de separação, alterna ciclos de crescimento e de declínio. A natureza da vida-morte-vida não só nos ensina a acompanhar esses ciclos na dança, mas nos mostra que a solução para o mal-estar está sempre no contrário. Portanto, novas atividades são a cura para o tédio; a intimidade é a cura para a solidão; a solidão é a cura para a sensação de falta de espaço.”

“Sem o conhecimento dessa dança, a pessoa tem a tendência, durante vários períodos de águas paradas, a traduzir a necessidade de atividade nova e pessoal em gastos excessivos, em exposição a riscos, em escolhas irresponsáveis, na procura de um novo parceiro. Esse é o jeito do tolo ou do pateta. É a solução dos que não sabem.”

Então, se um cara vai de fato entrar na nossa vida, não podemos projetar nele uma felicidade de conto de fadas. Temos que olhar para ele como o que ele é: um parceiro. E aceitar a transformação que ele vai gerar em nós, mesmo que ele saia de cena logo depois.

“É assim que o relacionamento amoroso deveria funcionar, com cada parceiro transformando o outro. A força e poder de cada um são desembaraçados, compartilhados. Ele lhe dá seu tambor do coração. Ela lhe transmite o conhecimento dos ritmos e emoções mais complicados que se possa imaginar. Quem sabe o que os dois irão caçar juntos?”


Lição do Dia: slow life.

Pendências: tomando meu comprimido de ferro, um por dia, vamos lá!

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domingo, 24 de outubro de 2010

Dia 31 – A entrega do coração

Capítulo 5 – A caçada: Quando o coração é um caçador solitário

Conto: A Mulher-esqueleto: Encarando a natureza de vida-morte-vida do amor

As fases posteriores do amor: O coração como tambor e o canto para criar a vida

Depois das 5 primeiras fases do amor, Clarissa começa a nos contar sobre as fases posteriores ao amor. A primeira delas é ‘O coração como tambor e o canto para criar vida’.

“O centro fisiológico e psicológico é o coração. Nos Tantras do hinduísmo, que são instruções dos deuses aos seres humanos, o coração é o Anãhata chakra, o centro nervoso que abrange o sentimento por outro ser humano, o sentimento por si mesmo, pela terra e por Deus. É o coração que nos permite amar como ama uma criança: totalmente, sem reservas e sem qualquer capa de sarcasmo, depreciação ou protecionismo.”

“Quando um homem entrega seu coração por inteiro, ele se torna uma força espantosa — ele se toma uma inspiração, papel que no passado era reservado apenas às mulheres. Quando a Mulher-esqueleto dorme com ele, ele se torna fértil. Ele é investido com poderes femininos num meio masculino. Ele passa a levar as sementes da nova vida e das mortes necessárias. Ele inspira novos trabalhos a si mesmo, mas também àqueles que estão por perto.”

No começo desse ano li o livro ‘Amor Líquido - Sobre A Fragilidade Dos Laços Humanos’ de Zygmunt Bauman. Esse livro fala do amor na nossa sociedade moderna, e como as mudanças de valores e a velocidade das telecomunicações interferiram no nosso modelo de relacionamento amoroso. Uma parte do livro que gostei bastante era a que dizia que a maior parte dos homens modernos tem modelos de relacionamentos ultrapassados. Assim como seus avôs eles ainda acham que devem exercer a função de homem trabalhador, e que apenas prover a família e dar segurança para as esposas vai tornar o relacionamento bem sucedido.

Mas na modernidade esses valores perderam bastante de sua importância e hoje são fatores secundários. Hoje em dia estamos isolados no meio da multidão, dependendo de formas de comunicação fria, num mundo onde a emoção é usada como arma para o consumismo. No meio dessa mudança, as mulheres estão à procura de parceiros que desenvolvam intimidade e que sejam companheiros. Já vi, com muito pesar, casamentos de décadas terminarem porque as esposas estavam insatisfeitas com a doação emocional do parceiro. E eles ainda achavam que já estavam fazendo o seu melhor: ‘Mas eu te dou tudo, uma casa confortável, uma vida financeira próspera, presentes, viagens, filhos, uma vida sexual satisfatória, o que mais você quer?’.

Pois eu digo agora o que eu, e provavelmente muitas mulheres, procuram num parceiro moderno: eu quero um cara que compartilhe os seus pensamentos, sentimentos e desejos comigo. Eu quero um cara que procure me ajudar a alcançar um bem-estar espiritual, e não material. Eu quero um cara que me ajude a trabalhar meus defeitos, e a investir nas minhas qualidades. Eu quero um cara que me apóie mesmo quando discordar da decisão que vou tomar. Eu quero apoio emocional para meus sonhos, para meus projetos, para a minha criatividade. Eu quero compreensão. Compreensão não no sentido de ‘eu entendo o que você sente’, mas no sentido de ‘quando você está triste eu fico triste, e quando está feliz, fico feliz também’.

“Com o passar dos anos, percebi isso nos outros e vivenciei em mim mesma. É uma ocasião profunda quando criamos alguma coisa de valor através da crença que o parceiro tem em nós, através do sentimento sincero que ele tem pelo nosso trabalho, nosso projeto, nosso tema. É um fenômeno surpreendente. E não se limita necessariamente aos relacionamentos amorosos; ele pode ocorrer com qualquer um que nos entregue o coração intensamente.”

O que eu quero de um homem? Que me entregue seu coração intensamente! Que seja um pouco mulher no corpo de um homem. Eu vivo brincando com meus amigos que gosto de caras que tenham uma certa porcentagem gay. O que quero dizer é que me atraio por caras que conseguem ter sentimentos que normalmente são femininos: o compartilhar, o cuidar, o doar, o dar, sem pedir absolutamente nada em troca.

“Portanto, a canção entoada e o uso do coração como tambor são atos místicos para despertar camadas da psique não muito usadas ou vistas. A respiração ou pneuma que paira sobre nós abre certas fendas, faz surgir certas faculdades que de outro modo seriam inacessíveis. Não sabemos dizer para cada pessoa o que será invocado pelo canto, despertado pelo tambor, porque eles atuam sobre frestas estranhas e raras no ser humano que participa. No entanto, podemos ter certeza de que seja o que for que acontecer terá uma irresistível força numinosa.”


Lição do Dia: feliz de encontrar a mulher dentro do meu parceiro.

Pendências: pois então, descobri que estou com anemia. Se vocês, assim como eu, não andam cuidando da alimentação: cuidado! Os problemas podem ser bem mais sérios do que apenas cabelo sem vida e unhas frágeis.

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sábado, 23 de outubro de 2010

Dia 30 – Homens que choram

Capítulo 5 – A caçada: Quando o coração é um caçador solitário

Conto: A Mulher-esqueleto: Encarando a natureza de vida-morte-vida do amor

As primeiras fases do amor: A doação da lágrima

“Quando se chegou até esse ponto no relacionamento com a natureza da vida-morte-vida, a lágrima vertida é a lágrima da paixão e da compaixão combinadas, por si mesmo e pelo outro. É a lagrima mais difícil de ser derramada, especialmente para os homens e certos tipos de mulheres ‘calejadas pela vida urbana’.”

“Tão certo quanto o fato de a Mulher-esqueleto vir à tona, agora essa lágrima, esse sentimento no homem, também chega à superfície. Ela é uma aula de amor a si mesmo e ao outro. Despido, agora, de todos os espinhos, anzóis e facas do mundo diurno, o homem atrai a Mulher-esqueleto para deitar-se ao seu lado, para beber e se nutrir com seu sentimento mais profundo. Nessa sua nova forma, ele é capaz de saciar a sede do outro.”

Quando li essa parte da história, quem teve vontade de chorar fui eu! Hehe! Primeiro porque me lembrei de todas as amigas mulheres que se envolveram com homens que não conseguiam chegar até essa última etapa das primeiras fases do amor: a doação da lágrima. Muitas delas fizeram tudo o que era necessário, se doaram, cederam, apertaram suas mãos, deram apoio, mas nada dessa lágrima vir. O que também me deu vontade de chorar foi ver que muitas mulheres empacam nesse mesmo problema. Muitas tentam viver vestindo a roupa do personagem da mulher ideal e esquecem que elas devem dar à seu parceiro a lágrima de suas próprias feridas.

“A lágrima de quem sonha surge quando aquele que virá a ser um amante se permite sentir seus próprios ferimentos e curá-los, quando ele se permite ver a auto-destruição provocada pela perda da sua fé na bondade do self, quando ele se sente isolado do ciclo protetor e revitalizante da natureza da vida-morte-vida. É então que ele chora, por sentir solidão, uma imensa saudade daquele local psíquico, daquele saber primitivo. É assim que o homem se cura, e que aumenta sua capacidade de compreensão. Ele assume a função de criar seu próprio remédio; ele assume a tarefa de alimentar o ‘outro extinto’. Com suas lágrimas, ele começa a criar.”

Em relação ao homem bloqueado tenho muita pena que talvez nunca na vida eles sejam capazes de se entregar ao verdadeiro amor. Às mulheres que estão com eles, fico triste porque muitas vezes só descobrem esse bloqueio no parceiro anos depois. Fiquei triste por mim, por perceber agora que eu sou uma dessas mulheres ‘calejadas pela vida urbana’, e que não foi em todos os relacionamentos que eu consegui verter essa lágrima.

“Talvez não exista nada que uma mulher deseje mais de um homem do que a atitude de ele desmanchar suas projeções e encarar seu próprio ferimento. Quando o homem enfrenta seu ferimento, a lágrima surge naturalmente, e suas lealdades internas e externas se tornam mais fortes e definidas. Ele se transforma no seu próprio curandeiro. Não se sentirá mais solitário à procura do Self profundo. Ele não mais procura a mulher para ser seu analgésico.”

Essa expressão ‘analgésico’ chega a ser cretina! Como alguém pode usar outra pessoa como remédio para dor? Eu contei aqui para vocês outro dia que um ex-namorado meu começou a sair comigo porque estava arrasado com o seu divórcio. Ele dizia que estava tudo bem, vivia como se estivesse tudo bem, mas depois de apenas algumas semanas eu comecei a perceber que não, não estava tudo bem. Ele levava a vida sem esperança, vivia um dia após o outro, era como uma folhinha no vento esperando para ser levada. Ele havia perdido a esperança na vida, havia desistido dos seus sonhos, do amor até. E ele queria ficar comigo porque dizia que eu trazia uma sensação gostosa de alívio.

No começo isso até me vangloriou. Puxa, ninguém nunca havia visto em mim uma espécie de salvação! Depois isso começou a me deixar um pouco angustiada: sou merecedora de tudo isso? Mais tarde, comecei a ficar irritada: ‘Oi, olha, a Vero tá aqui, eu sou uma pessoa única, não quero ser alívio de ninguém, quero que você me ame pelo que eu sou e não pelo que eu te ofereço!’. Eu gostava muito dele, entendia a sua dor, queria que ele melhorasse! E aos poucos ele começou a abrir o seu coração. Um dia acordou no meio da noite e me contou o pesadelo, depois começou a me contar a história do seu casamento, das brigas, das discussões, de como terminou. Contou-me de sua depressão, da perda de peso, dos remédios.

Algumas semanas depois, ele já conseguia falar sobre esse assunto rotineiramente. E eu sentia um peso saindo dos ombros dele, sentia que ele estava genuinamente mais feliz, mais saudável, mais confiante. Começou a fazer planos, voltou a ter sonhos, nossa, era um outro homem! Até que um dia ele me contou de uma cena que o acompanhava todos os dias, todos os momentos, até durante o sono: a tentativa de suicídio da ex-esposa.

Nessa hora eu percebi que não ia vir dele a vontade de se curar. Ele não permitia que ninguém, nem seu terapeuta, tocassem esse momento da vida dele. Ele não permitia que esse assunto fosse trabalhado. Não era a hora. Eu acredito que as pessoas sempre dão o que elas têm para dar. E ele me deu o que ele tinha. Mais do que isso não tinha como. Como as pessoas podem dar mais do que elas têm? Infelizmente, para mim não foi o suficiente.

Todas as vezes que me lembro dele torço para que ele tenha encontrado uma nova mulher e que, ao seu lado, finalmente consiga verter a lágrima para a sua própria cura!

“Quando o homem verte a lágrima, é que ele se deparou com a própria dor; e ele a reconhece ao tocá-la. Ele percebe como sua vida foi vivida de forma protegida em virtude do ferimento. Percebe tudo o que perdeu na vida devido ao ferimento. Vê como cerceou seu amor à vida, a si mesmo e ao outro.”


Lição do Dia: lembrando do passado e aceitando que às vezes não é a hora.

Pendências: hoje fiz uma consulta com uma homeopata. Gente finíssima! Sentia falta desse tipo de médico que, além de pedir exames, te pergunta com o que você sonha e como anda a sua vontade de comer doce...

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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Dia 29 – Você cutuca as suas feridas?

Capítulo 5 – A caçada: Quando o coração é um caçador solitário

Conto: A Mulher-esqueleto: Encarando a natureza de vida-morte-vida do amor

As primeiras fases do amor: O sono da confiança

“Nesse estágio do relacionamento, o amante volta ao estado de inocência, estado no qual ele ainda se amedronta com os elementos emocionais, no qual ele está cheio de desejos, esperanças, sonhos. A inocência é diferente da ingenuidade. No interior existe um antigo ditado: ‘A ignorância é não saber nada e ser atraído pelo bem. A inocência é saber tudo e ainda assim ser atraído pelo bem’.”

“Esse estado de sábia inocência é alcançado quando descartamos o cinismo e as atitudes defensivas e voltamos a mergulhar no estado de deslumbramento que vemos na maioria dos seres humanos que são muito jovens e em muitos que são bem velhos. É a prática de se olhar com os olhos de um espírito sábio e amoroso, em vez de olhar com os do cão açoitado, da criatura acuada, da boca acima do estômago, do ser humano ferido e irritado. A inocência é um estado que se renova quando dormimos. Infelizmente, são muitos os que a deixam de lado junto à colcha ao acordar. Seria melhor se sempre trouxéssemos conosco uma inocência alerta e a apertássemos junto ao corpo para sentir seu calor.”

Minha terapeuta sempre diz que nós somos um conjunto de cicatrizes de coisas que aconteceram no passado. É importante olharmos para trás com olhos críticos e tentarmos entender qual situação criou cada cicatriz em nossa alma. Mas isso não é suficiente. O passo mais importante é aceitarmos o que aconteceu e não levarmos essa dor adiante! Merda já aconteceu com todos nós, principalmente na vida amorosa. Mas levar toda a dor dessas cicatrizes para cada novo relacionamento só vai nos atrapalhar. Temos que lembrar como elas surgiram, temos que aceitar essas marcas no nosso corpo, e parar de cutucá-las para permitir que elas se curem.

A diferença entre uma criança e um velho sábio, é que uma criança não tem nenhuma cicatriz causada pela vida. Já um sábio conhece suas cicatrizes uma por uma, e sabe lidar e viver com elas. Elas são o acúmulo de experiências, de transformações, de aprendizados. Não podemos voltar a ser crianças, mas podemos buscar essa paz, essa sensação de que o trabalho foi bem feito, e de que o sofrimento faz parte da vida.

“Embora a princípio a volta a esse estado possa exigir que eliminemos anos de pontos de vista desgastados, décadas de meticulosa construção de amuradas desumanas, uma vez que voltemos a ele, nunca mais precisaremos indagar por ele, escavar a sua procura.”

Quando eu olho para a minha vida amorosa consigo identificar uma série de situações que me deixaram cicatrizes. Já fui rejeitada por não ser boa o suficiente, já fui enganada, já fui passada para trás, já deixei que tirassem partes de mim. Tudo isso me trouxe alguns bons mecanismos de defesa, que nada mais são do que muralhas que construímos ao nosso redor. De uns tempos para cá, qualquer coisinha afeta o meu ego. Tenho pavor de críticas ou de julgamentos, prova de que minha auto-estima não está completamente recuperada. De uns tempos para cá é só meu namorado me ligar mais de uma vez numa tarde que já tenho ataques de claustrofobia, com medo de que ele domine a minha vida e que eu deixe de viver pelos meus princípios. De uns tempos para cá desaprendi a ceder. Porque tenho medo que cada vez que eu ceder, aos pouquinhos, vou estar deixando de ser quem eu sou.

Todas essas cicatrizes ainda doem e me mantém em estado de alerta o tempo inteiro, achando que de algum lado podem vir me machucar de novo.

Meu namorado também tem as suas cicatrizes. Ele já foi largado por alguém que confiava num momento muito difícil da sua vida. Isso gerou uma atitude auto-protetora no estilo ‘ninguém é mais importante do que eu, e nada é mais importante na minha vida do que os meus planos’. Vez ou outra isso beira o egoísmo, mas eu entendo, isso vem da dor. E estou ao seu lado para mostrar que ele pode voltar a confiar nas pessoas. Sua última namorada era extremamente ciumenta e dominadora. Isso quer dizer que ele vive esperando que eu surte, dê um piti sem justificativa, cause, comece a berrar e saia quebrando as coisas na sala. Toda vez que ele vai me contar algo que ele acha que vai causar ciúmes, ele fala com uma voz bem mansa, como se estivesse falando com uma criança, chegando pertinho de mim e me abraçando. Quando ele vê que eu não dava escândalo, a reação foi oposta: ‘Você não sente nenhum ciúmes de mim???’. Hehehe. Ele aprendeu que ciúmes é dar valor, que ter ataques de fúria são provas de amor.

“Existe uma prudência que é verdadeira, quando o perigo está por perto, e uma prudência que não tem justificativa e que se origina de algum ferimento anterior. Esta última faz com que os homens ajam de modo irritadiço e desinteressado mesmo quando eles sentem que gostariam de demonstrar carinho e afeto. As pessoas que têm medo de ‘ser ludibriadas’ ou de entrar ‘num beco sem saída’ – ou que não param de vociferar seus direitos de querer ‘ser livre’ – são as que deixam o ouro escapar pelas mãos.”

Não seria justo eu pedir um homem na minha vida limpo de cicatrizes. Todos nós temos as nossas. Mas é importante que, aos poucos, a gente permita que essas cicatrizes se curem. Eu trabalho todos os dias tentando me melhorar. Meu parceiro deve fazer o mesmo. Se não faz, eu o ajudo. Se mesmo com minha ajuda ele não se permitir abandonar a dor das velhas feridas, eu tenho motivos para acreditar que ele seja masoquista. Brincadeira? A quantidade de gente que conheço por aí que adora sentir uma dor e cutucar a casquinha das próprias feridas é absurda!

“Ser inocente significa ser capaz de ver com nitidez qual é o problema e corrigi-lo. Essas são as poderosas imagens por trás da inocência. Ela é considerada não só uma atitude de evitar o dano aos outros ou ao próprio self, mas também a capacidade de curar e recuperar a si mesma (e aos outros). Pense nisso. Imagine as vantagens para todos os ciclos do amor.”

“Para que o amor viceje, o parceiro precisa confiar que o que vier a ser será de natureza transformadora. Ele deve permitir entrar naquele estado de sono que nos devolve a uma sábia inocência, que cria e recria, como seria de se esperar, as espirais mais profundas da experiência da vida-morte-vida.”


Lição do Dia: parando de cutucar algumas velhas feridas.

Pendências: estou com uma dificuldade infeliz de organizar as coisas que tenho que fazer em datas e horários. É impressionante que a organização que temos no nosso trabalho, nem sempre vem com a gente pra casa.

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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Dia 28 – Ego X Alma no Amor

Capítulo 5 – A caçada: Quando o coração é um caçador solitário

Conto: A Mulher-esqueleto: Encarando a natureza de vida-morte-vida do amor

As primeiras fases do amor: Desembaraçando o esqueleto

Eu queria pedir desculpas por não ter postado ontem. Não foi por falta de vontade. Diversas vezes comecei o texto e quando estava prestes a publicar, relia e sentia que ainda não estava bom. O grande problema de não ser uma psicóloga é que é difícil para mim conseguir ser neutra o tempo inteiro. Ainda mais com o conto da Mulher-esqueleto, que fala sobre a natureza dos relacionamentos. Eu consigo apenas escrever sobre a minha própria experiência. E nem sempre isso é bom.

Por isso, para o post de hoje eu resolvi pegar emprestado um texto do psicólogo Ailton Amélio do blog http://ailtonamelio.blog.uol.com.br/ que fala sobre as diferentes formas de amar. Isso é importante porque, embora a Clarissa escreva sobre naturezas que existem em todos os relacionamentos, eles começam diferentemente para cada um de nós. Temos que respeitar como cada um ama e por quais características se apaixona. E dentro dessa variedade, estudar e refletir sobre os pontos importantes que relacionamentos em geral têm em comum.

É como o termo ‘bem-sucedido’, que é extremamente relativo. Para algumas mulheres ser bem sucedida significa alcançar um certo cargo, ganhar tal quantia, se relacionar com determinado perfil de homem. Para outras significa viver de acordo com os seus princípios e passar pelo maior número de experiências transformadoras possíveis. Sinceramente, como você vê o sucesso na sua vida é uma decisão pessoal e eu não tenho como julgar o que vai te fazer feliz.

Então, segundo o psicólogo Ailton, temos os seguintes tipos de amor:

“ESTILOS DE AMOR

Estilos Primários:

Estórgico: O amor nasce a partir de uma amizade. Quem tem este tipo de amor não se apaixona à primeira vista. Antes de apaixonar-se deve sentir confiança no parceiro, sentir que compartilha com ele pontos de vista e que está entrosado com ele.

Eros: Dá muita importância para a aparência física do parceiro: geralmente sabe descrever o tipo físico que o agrada. Também é importante sentir atração sexual e sentir certo fascínio pelo parceiro assim que o conhece.

Mania: A fantasia sobre o parceiro pode ser mais importante que a realidade. É vulnerável àqueles parceiros que usam o “tratamento quente frio”: em certos momentos mostram interesse, em outros momentos mostram indiferença (são mais sensíveis ao elemento “insegurança”, apontado por Stendhal como um dos requisitos do apaixonamento).

Estilos Secundários:

Pragma: Sabe citar uma série de características que o parceiro deve possuir, ou seja, usam uma espécie de “lista de compras” na hora de escolher o parceiro. Como é mais racional, raramente “entra de cabeça em um relacionamento” ou deixa-se seduzir por parceiros que não preencham os seus requisitos.

Ludos: É exigente para se envolverem amorosamente. Pode se envolver com vários parceiros simultaneamente. Gosta mais da conquista do que da permanência em um relacionamento.

Ágape: Poder ajudar é um caminho freqüentemente trilhado por quem tem este tipo de amor. Pode se envolver com alguém que está sentindo-se desamparado porque está saindo de outro relacionamento.”

Eu, por exemplo, tenho o estilo Estórgico como primário. Não é à toa que meus relacionamentos começam de amizades e que continuo amiga dos meus ex-namorados. Meu estilo secundário é o Ágape: meu lado maternal sempre acaba inundando o meu relacionamento.

É fácil, quando temos determinado estilo de amar, julgar um estilo diferente do nosso. Cada um sabe o ego que tem e pelo que ele se atrai. Muitas vezes nos sentimos atraídas pelo parceiro pelos desejos do nosso ego: status social, segurança, conforto, luxo, aparências, poder se sentir importante, desafiado, etc. Mas, para entrarmos de cabeça num relacionamento, devemos deixar o ego um pouco de lado, e entrar com os desejos e percepções da alma.

“Três aspectos diferenciam a vida a partir da alma, da vida a partir do ego apenas. Eles são a capacidade de pressentir novos caminhos e de aprendê-los, a tenacidade necessária para atravessar uma fase difícil e a paciência para aprender o amor profundo com o tempo. (...) Portanto, não é a partir do ego inconstante que amamos o outro, mas sim, do fundo da alma selvagem.”

Esse trecho do livro nos mostra a etapa de “Desembaraçar a Mulher-esqueleto”. Essa é uma etapa importantíssima na construção de um relacionamento amoroso. É a etapa seguinte após enfrentarmos o medo de ficar, e decidirmos entrar na relação. É quando sentamos do lado da mulher-esqueleto e começamos a desembaraçar os ossos. É quando aceitamos a força da vida-morte-vida e vamos aprender como ela funciona.

Quais são os ciclos de morte e vida no meu relacionamento? Quais são as fases de escassez e da abundância? Quais são as partes não-belas de nós mesmas que devemos mostrar, e do parceiro que vamos começar a amar? Aonde a Mulher Selvagem entra em contato com o Homem Selvagem?

“Uma pessoa que tenha desembaraçado a Mulher-esqueleto conhece a paciência, sabe esperar melhor. Ela não se choca com a escassez, nem tem medo dela. Não é dominada pela fruição. Suas necessidades de obter, de “conseguir agora mesmo”, são transformadas num talento mais refinado que procura todas as facetas do relacionamento, que observa como funcionam em conjunto os ciclos do relacionamento. Ela não tem medo de se relacionar com a beleza da ferocidade, com a beleza do desconhecido, com a beleza do não-belo. E ao aprender e praticar tudo isso, essa pessoa se torna o perfeito parceiro selvagem.”

Clarissa nos ensina como podemos fazer isso. É simples: basta deixarmos o ego de lado, por um instante que seja, e nos fazermos as seguintes perguntas:

“Ao que eu preciso dar mais morte hoje, para gerar mais vida? O que eu sei que precisa morrer, mas hesito em permitir que isso ocorra? O que precisa morrer em mim para que eu possa amar? Qual é a não-beleza que eu temo? Que utilidade pode ter para mim hoje o poder do não-belo? O que deveria morrer hoje? O que deveria viver? Qual vida tenho medo de dar à luz? Se não for agora, quando?”


Lição do Dia: questionando minha alma sobre as Mortes e as Vidas.

Pendências: organizando minha tabela financeira.

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