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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Dia 68 – Quando estamos definhando

Capítulo 9 – A volta ao lar: O retorno ao próprio Self

Conto: Pele de Foca, Pele da Alma
(Link para a história completa no menu à direita)

O definhamento e a invalidez

“A maioria das depressões, tédios e confusões errantes da mulher é causada por uma severa restrição da vida da alma, na qual a inovação, o impulso e a criatividade são proibidos ou limitados. As mulheres recebem um enorme impulso para agir proveniente da força criadora. Não podemos ignorar o fato de ainda ocorrerem muitas apropriações e mutilações dos talentos das mulheres através das restrições culturais e do castigo aos seus instintos naturais e saudáveis. Podemos nos libertar dessa condição se houver um rio subterrâneo ou até mesmo uma pequena corrente que escorra de algum lugar profundo da alma para dentro da nossa vida. Se, no entanto, a mulher "longe de casa" ceder toda a sua força, ela se transformará primeiro numa névoa, depois num vapor e afinal numa sombra do seu antigo self selvagem.”

Pessoalmente eu tive muitos momentos desses na vida, e fico bastante feliz ver que em muitos deles eu obedeci o meu instinto e simplesmente fui embora. Lembro que o primeiro deles foi quando eu tinha apenas 18 anos de idade. Eu me sentia sufocada, agredida e mutilada por uma parte da minha família, que possuía rígidos valores sobre como uma mulher deveria ser e como deveria se comportar. Para eles a negociação era muito simples: siga as nossas regras e tenha o nosso amor, ou não siga e ganhe a nossa rejeição. Foi muito difícil para mim ser criada num contexto desses. Eu sofria tentando ser o que eles esperavam que eu fosse, mas aquilo me machucava demais. Cada vez que eu me descuidava e tinha um comportamento regido pelos meus valores pessoais eu era emocionalmente punida. E lá ia eu, novamente, me sentindo culpada e incapaz, voltar a ser uma boa menina para que eles tivessem orgulho de mim.

“A atitude do segundo velho constitui uma reação cultural comum diante da mulher que desenvolveu uma persona impecável, mas que tem de se aleijar toda ao tentar mantê-la. Bem, é, ela está aleijada, mas veja como está elegante, veja como é boa, veja como está se saindo bem. Quando começamos a definhar, tentamos caminhar todas tortas para dar a impressão de que estamos cuidando de tudo, que tudo está bem e em perfeita ordem. Quer seja a pele da alma que nos falte, quer seja a pele criada pela cultura que nos sirva, ficamos aleijadas quando fingimos que nada disso ocorre. Quando agimos assim, a vida se encolhe e o preço que pagamos é muito alto.”

Como vocês podem imaginar isso deixou cicatrizes muito grandes no meu self. Ser valorizada pelos outros virou quase uma obsessão durante a minha adolescência. Mas era difícil, porque meus instintos naturais me faziam agir exatamente o contrário do que esperavam de mim. De todas as crianças da família, e eram muitas, eu fui a que mais recebi medidas ‘educativas’. Hoje, eu consigo olhar para trás e perceber que isso acontecia porque eles percebiam em mim alguma coisa diferente, algo fora do padrão, uma certa força insubordinável que ficava mais forte com o passar dos anos. Eles esperavam que quanto mais velha eu ficasse mais facilmente eu aceitaria as regras impostas. Mas não. Eu não era apenas uma criança difícil e uma adolescente cheia de ‘manias’. Eu era a representação de tudo o que eles gostariam de eliminar da face da Terra: a independência da mulher.

Assim como vítimas de violência, às vezes estamos numa situação emocional tão precária que perdemos nossa capacidade de perceber o que queremos. A única coisa que conseguimos, e com grande clareza, é perceber o que NÃO queremos: não queremos mais sentir dor, não queremos mais ser agredidas, não queremos mais viver pelos valores alheios.

E foi com 18 anos que eu senti esse ‘eu NÃO quero’ pela primeira vez. Eu não quero ser valorizada pela quantidade de regras que eu sigo, eu não quero que o amor dos outros por mim seja condicional, eu não quero conviver com pessoas que não me amam pelo que eu sou, eu não quero ter que ‘pagar’ para ser aceita, eu não quero ser transformada num vaso de decoração de uma sala de estar, eu não quero colocar todas as expectativas de vida num casamento, eu não quero ser uma mulher cuja leitura se resuma às revistas de decoração.

E comecei a viver como eu queria. Depois de alguns meses eu recebi a maior punição possível: me impediram de ir ao enterro de um parente muito querido por mim. E doeu, nossa como doeu! Eu passei uma manhã inteira em casa aos prantos, tentando entender porque logo as pessoas que diziam me amar me puniam dessa maneira. E então eu percebi que eu NÃO queria mais tê-los como família.

Eu deixei de freqüentar toda e qualquer comemoração familiar. Eu não respondia nenhum convite de casamento, nascimento ou velório. Eu não atendia mais nenhum telefonema. Eu saia de casa quando algum parente vinha visitar. Eu proibi minha mãe de me dar notícias sobre eles. Eu devolvi cada presente que me foi enviado. Eu nunca mais pronunciei nenhum de seus nomes. Foi um período muito difícil. Do dia para a noite eu não tinha mais nenhum lugar para ir no Natal, não tinha mais de quem receber um abraço de Ano Novo. E sei que esse era o plano: quando eu não agüentasse mais o isolamento e a solidão, eles imaginavam que eu iria voltar correndo pedindo perdão. Mais depois de um ano, eu simplesmente já havia parado de me importar. Os laços haviam sido cortados.

Eu considero esse ‘eu não sei o quero, mais sem muito bem o que não quero’, como um passo extremamente importante para a cura de uma mulher. Porque quando percebemos o que nos faz mal e quando desejamos que esse mal seja eliminado da nossa vida, já estamos mais conscientes das mutilações que somos vítimas. Ter a capacidade de perceber que estamos definhando é essencial para nos afastarmos de tudo o que representa uma agressão para nossa alma. Significa que lá no fundo, nossos instintos selvagens ainda têm força para nos gritar: ‘Saia daí, agora!’.

“Portanto, às vezes não é apenas a mulher que está definhando. Pode acontecer que aspectos essenciais do seu próprio meio ambiente — por exemplo, a família ou o ambiente de trabalho — ou do seu ambiente cultural mais amplo estejam também se crestando e se desfazendo em pó, e isso a afeta e a aflige. A fim de que ela possa contribuir para a correção dessas condições, é necessário que volte à sua própria pele, ao seu próprio bom senso instintivo e ao seu próprio lar.”


Lição do Dia: lembrando de algumas recordações tristes, mas sentindo orgulho de mim.

Pendências: faço ou não faço uma lista de promessas de ano novo?

Leia o conto Pele de Foca, Pele da Alma completo:  http://querocorrercomoslobos.blogspot.com/p/pele-de-foca-pele-da-alma.html   

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sábado, 6 de novembro de 2010

Dia 43 – O elogio

Capítulo 6 – A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma bênção

Conto: O patinho feio
(Link para a história completa no menu à direita)

O amor pela alma

“É provável que não exista uma medida melhor e mais confiável para se saber se uma mulher passou pelo status de patinho feio em algum ponto da sua vida ou durante toda ela do que sua incapacidade de aceitar um cumprimento sincero. Embora essa atitude possa ser uma questão de modéstia ou possa ser atribuída à timidez — apesar de muitíssimos ferimentos graves serem descartados descuidadamente como "nada mais do que timidez" — é muito mais comum que a mulher evite o elogio, gaguejando, porque ele inicia um diálogo automático e desagradável na mente da mulher.”

“Se você disser que ela é bonita, que sua arte é linda ou se a elogiar por alguma coisa de que sua alma participou, que tenha sido inspirada por sua alma ou que esteja dela impregnada, algo na sua cabeça lhe diz que ela não merece o elogio e que você, que a está elogiando, é idiota por ter uma opinião dessas a seu respeito. Em vez de entender que a beleza da sua alma aparece refulgente quando ela é ela mesma, a mulher muda de assunto e consegue assim roubar o sustento do self-alma, que se nutre de ser reconhecido.”

Elogios. Qualquer mulher que more no planeta Terra já foi elogiada, e muito. Os homens aprendem desde jovens que para conquistar a confiança, o carinho ou o amor de uma mulher eles devem começar nos elogiando. Normalmente os ensinam que se deve elogiar as formas físicas de uma mulher. Do mais vulgar ao mais sutil, todos esses elogios normalmente são dirigidos ao nosso corpo: sorriso, lábios, curvas, pernas. Outros nos elogiam quase em choque, quando percebem que temos alguma coisa interessante dentro da nossa cabeça oca: ‘Mas como você é inteligente! Nossa mas você é bem sucedida! Você é diferente das outras mulheres!’. Mal percebem que esses elogios na verdade nos ofendem, porque é como se nos dissessem que não fomos feitas para ter atributos intelectuais, criativos ou capacidade para criar uma vida só nossa. Esses são os tipos errados de elogio. Esses são os elogios que não alimentam a nossa alma, muito pelo contrário, a aprisiona! Esse tipo de elogio mantém a ordem do mundo onde as mulheres não passam de objetos sexuais que, quando inteligentes, estão fora do padrão!

Tenho certeza que quando Clarissa falava de elogio ela estava se referindo ao segundo tipo: ao elogio que nos alimenta, ao elogio que nos motiva, ao elogio que nos dá energia e forças para continuar na luta! Esse elogio normalmente vem de pessoas que nos conhecem, que nos entendem, que são como nós. São pessoas que não cansam de nos lembrar o quanto estamos cheias de características maravilhosas e talentos únicos!

Já há décadas os pedagogos perceberam que não são apenas regras e broncas com suas punições que educam uma criança. As crianças são muito mais sensíveis ao positivo do que ao negativo. Se você vira para uma criança bagunceira e diz ‘Não é assim que se faz! Você não consegue ser organizado! Vai ser punido se não me obedecer!’, você está ensinando para a criança que ela só é notada quando faz coisa errada e que, se ela quiser continuar chamando a atenção, deve permanecer com o mesmo comportamento. Se os pais não esperam o melhor dela, como ela vai esperar algo bom dela mesma?

Já se você elogiar a criança, sempre, cada vez que ela fizer algo bom ou se esforçar para tal, aí sim você consegue uma verdadeira mudança de comportamento! Diga para uma criança: ‘Temos muito orgulho de você! Você é uma criança especial! É um filho maravilhoso e nos dá muita alegria!’. Com o tempo ela vai querer estar a altura desses elogios, ela vai querer ser cada vez melhor, vai querer que os pais tenham sempre orgulho, vai sempre querer dar alegria.

Se você assim como eu não nasceu em um lar onde o elogio era um hábito, provavelmente escutou muito mais críticas do que elogios na sua vida. Como fica a auto-estima de uma mulher que a vida inteira escutou que faz tudo errado, que não faz o que deveria fazer, que não é boa o suficiente? Essa mulher vai ter uma auto-estima beirando a zero!

Eu já fui uma dessas mulheres. E lembro que no início da terapia só conseguia pensar coisas ruins a meu respeito. Não conseguia citar quase nenhuma qualidade minha! Com o tempo fui percebendo que tenho sim qualidades incríveis e talentos natos, e precisei escutar muitos elogios de pessoas que verdadeiramente me amavam para começar a ter um pouco mais de fé em mim mesma.

“Portanto, essa é a função final da mulher exilada que encontra seu próprio grupo: não só a de aceitar a própria individualidade, a própria identidade específica como um determinado tipo de pessoa, mas também a de aceitar a própria beleza... a forma da nossa própria alma e o fato de que viver junto dessa criatura selvagem transforma a nós e a tudo que ela toca.”

“Quando aceitamos nossa própria beleza selvagem, ela fica em perspectiva, e nós deixamos de ser incomodadas pela sua percepção, mas também não renunciaríamos a ela nem negaríamos sua existência. Uma loba sabe a beleza que tem ao saltar? Uma fêmea de felino sabe as belas formas que cria ao se sentar? Uma ave se espanta com o som que ouve ao abrir as asas? Aprendendo com elas, simplesmente agimos à nossa própria maneira e não evitamos nossa beleza natural nem nos escondemos dela. Como os animais, simplesmente somos, e isso é bom.”

Elogiar é um hábito que precisa ser cultivado! É necessário aprender a aceitar elogios, elogiar nossos parentes, nossos amigos, nosso parceiro. E não há nada mais motivador para um ser humano do que escutar uma frase tão simples: você é maravilhoso!

Lição do Dia: lembrando que faz meses que eu não elogio meu parceiro.

Pendências: Descobri que dois anos sem cuidar da minha boca destruíram minha saúde. Agora é correr atrás do prejuízo e lembrar que o fio dental é sim o melhor amigo dos nossos dentes!

Leia o conto O Patinho Feio completo: http://querocorrercomoslobos.blogspot.com/p/o-patinho-feio.html  

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domingo, 31 de outubro de 2010

Dia 37 – Sobre o desistir


Capítulo 6 – A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma bênção

Conto: O patinho feio

A aparência indevida


“Como o patinho feio, o intruso aprende a evitar situações em que possa agir certo mas mesmo assim dar a impressão errada. O patinho, por exemplo, sabe nadar bem, mas não tem a aparência devida. Por outro lado, a mulher pode ter a aparência perfeita e não conseguir agir corretamente."

Isso acontece com razoável freqüência quando estamos procurando nossa verdadeira família e comunidade. Repetimos para nós mesmas que não vamos nos enturmar com pessoas que não tem afinidade conosco, com nossas idéias, com nossos princípios. Mas como a procura é difícil e longa no meio do caminho já estamos desesperadas, carentes e solitárias ‘Mas não existe ninguém bacana nesse mundo?’, nos perguntamos.

Não entendemos porque pessoas bacanas como nós ainda não encontraram seu verdadeiro grupo. E nessa solidão temos a brilhante idéia de nos juntarmos às pessoas que estão disponíveis e acessíveis para nós. Aí está o erro! Quando resolvemos fazer parte de um grupo que em nada tem em comum com nossa alma selvagem só existe duas saídas prováveis: ou você vai deixar de ser você mesma e agradar os outros até ser desmascarada, ou você vai ser você mesma e desagradar a todo o resto até ser expulsa.

E isso vale para qualquer tipo de interação! Estou falando da escolha de familiares, de amigos, de namorados, de ambiente de trabalho, de cidade para se morar. Qualquer decisão que a gente tome quando estamos dominadas pelos monstros da carência e da solidão, tendem a terminar com sentimentos de frustração e de não pertencimento.

“Na história, o patinho começa agir como um pateta, aquele que não consegue fazer nada certo... ele joga poeira na manteiga e cai no barril de farinha, mas não antes de mergulhar primeiro no latão de leite. Todas nós já passamos por isso. Não conseguimos fazer nada certo. Tentamos melhorar. Em vez disso, pioramos. Não era para o patinho ter entrado naquela casa. Mas isso acontece quando se está desesperado. Vai-se ao lugar errado em busca da coisa errada.”

Que atire a primeira pedra quem nunca fez besteira quando estava dominada pela carência! A minha carência é quase uma segunda personalidade, com vida própria e um pouco maníaca. Só anos depois eu consegui aprender a lição: quando essa minha personalidade carente que quer agradar à todos estiver me dominando, a melhor coisa a fazer é correr para casa, ficar quietinha e esperar o surto passar.

“Embora seja útil abrir canais até mesmo para aqueles grupos aos quais não pertencemos e seja importante tentar ser gentil, é também imperioso não nos esforçarmos demais, não acreditar demais que se agirmos corretamente, se conseguirmos conter todos os impulsos e contrações da criatura selvagem, poderemos realmente passar por damas educadas, recatadas, contidas e reprimidas. É esse tipo de atitude, aquele tipo de desejo do ego de integrar-se a todo custo, que destrói o vínculo com a Mulher Selvagem na psique. E então, em vez de uma mulher vital, temos uma mulher simpática, a quem foram arrancadas as garras. Temos, então, uma mulher bem-comportada, com boas intenções, nervosa, ofegante no anseio de ser boa. Não, é melhor, mais elegante e muito mais profundo ser o que somos e como somos, deixando que os outros também o sejam.”

Se você desistiu de tentar procurar o seu grupo é porque provavelmente já se machucou bastante no processo ou já quase se perdeu tentando ser algo que não é. Se for o seu caso, não desista: você andou batendo apenas nas portas erradas, ainda há tempo de bater na porta certa!


Lição do Dia: ficando de olho no monstro da carência.

Pendências:
Day off para dar atenção ao meu parceiro.

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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Dia 35 – Seu tipo de mãe

Capítulo 6 – A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma bênção

Conto: O patinho feio

Tipos de mães

“Embora possamos interpretar a mãe na história como um símbolo da nossa própria mãe exterior, a maioria dos adultos tem agora uma mãe interior, como legado da sua mãe verdadeira. Trata-se de um aspecto da psique que atua e reage de um modo idêntico ao da experiência da infância de uma mulher com sua própria mãe. Além do mais, essa mãe interior compõe-se não só da experiência da mãe pessoal, mas também de outras figuras maternas das nossas vidas, bem como das imagens da mãe boa e da mãe perversa exibidas pela nossa cultura na época da nossa infância.”

“Na psicologia junguiana, esse emaranhado todo é chamado de complexo materno. Trata-se de um dos aspectos centrais da psique da mulher, e é importante reconhecer sua condição, reforçando certas características, corrigindo algumas, erradicando outras, e começando tudo de novo se necessário.”

Nesse conto da história, Clarissa analisa quais os tipos de mães que dão origem ao Patinho Feio. Para quem não se lembra da história vou fazer um breve resumo: o patinho feio, sendo muito diferente dos outros patos e animais da fazenda era constantemente mal tratado por toda a comunidade. No início a mãe protege seu filho, tentando fazê-lo se integrar com os outros. Cansada de se ver protegendo o Patinho Feio, a mãe pata acaba por sentir vergonha do próprio filhote e acaba por rejeitá-lo. É assim que o Patinho Feio sai da fazenda e começa a sua jornada.

Quando nos reconhecemos como um típico Patinho Feio à procura do seu lugar no mundo, temos que analisar qual foi o contexto que originou esse sentimento. Clarissa pede então que dentre os tipo de mães descritas a gente tente descobrir qual foi a mãe que tivemos e o que devemos fazer para nos livrar de complexo materno. Lembrando mais uma vez que, não importa a idade que você tenha, sempre levamos conosco uma mãe interna, que nos trata da mesma forma como éramos tratadas na infância.

A MÃE AMBIVALENTE: “A mãe curva-se aos desejos da comunidade em vez de se alinhar a favor do filho. A mulher que viva num ambiente semelhante irá tentar moldar a filha para que esta aja de modo "conveniente" no mundo objetivo. Uma direção é o seu próprio desejo de ser aceita pela comunidade. Outra é o instinto de auto-preservação. Uma terceira é o medo de que ela e o filhote venham a ser castigados, perseguidos ou mortos pela comunidade. Esse medo é uma reação normal a uma ameaça anormal de violência física ou psíquica. A quarta força é o amor instintivo da mãe pelo filho e a preservação desse filho.”

“Quando a mulher tem essa imagem da mãe ambivalente na sua própria psique, ela pode se descobrir cedendo com muita facilidade. Ela pode se descobrir com medo de firmar uma posição, de exigir respeito, de afirmar seu direito a fazê-lo, de aprender, de viver do seu próprio modo.”

A MÃE PROSTRADA: “Quando uma mãe desiste, isso significa que ela perdeu o sentido de si mesma. É mais provável que ela tenha sido isolada do Self selvagem e que tenha entrado em prostração, forçada por alguma ameaça real, de ordem psíquica ou física. Quando as pessoas caem prostradas, elas geralmente caem em um dentre três estados emocionais: o de confusão,  o de agitação (quando têm a impressão de que ninguém sente uma solidariedade adequada pela sua aflição) ou o de abismo (uma reencenação emocional de antigas feridas, muitas vezes frutos de uma injustiça inexplicada e não corrigida perpetrada contra elas ainda quando crianças).”

“Quando a mulher tem um constructo de mãe prostrada dentro da sua psique e/ou da sua cultura, ela é indecisa quanto ao seu valor. Ela pode considerar que as escolhas entre cumprir exigências exteriores e as exigências da alma são questões de vida ou morte. Ela pode se sentir como um pária atormentado que não se encaixa em nenhum lugar — o que é uma sensação relativamente normal para a pessoa "diferente" — mas o que não é normal é ficar sentada chorando, sem fazer nada. Devemos nos levantar e sair à procura do lugar a que pertençamos. Para quem é "diferente”, é sempre esse o próximo passo. E para uma mulher com uma internalização da mãe prostrada, esse passo é vital. Se a mulher tiver uma mãe prostrada, ela deve se recusar a se tornar outra mãe prostrada para si mesma.”

A MÃE CRIANÇA E A MÃE SEM MÃE: “Não há como escapar: a mãe precisa receber a atenção materna para dar atenção à sua própria prole. Embora a mulher tenha um vínculo físico e espiritual inalienável com seus rebentos, no mundo instintivo da Mulher Selvagem, ela simplesmente não se transforma de repente numa mãe temporal completa por si mesma. Na maioria dos países industrializados, hoje em dia, a jovem mãe choca, dá à luz e tenta beneficiar seus filhos completamente só. Trata-se de uma tragédia de enormes proporções.“

“Ela não é capaz de orientar e apoiar seus filhos mas, como as crianças da fazenda na história do patinho feio, que sentem uma alegria intensa por ter um animalzinho em casa mas não sabem cuidar direito dele, a mãe-criança acaba deixando o filho maltratado e em péssimas condições. Sem que o perceba, a mãe-criança tortura seu filho com diversas formas de atenção destrutiva e, em alguns casos, de falta de atenção.”

Minha mãe é uma clássica Mãe sem Mãe. Meus avós tinham um casamento infeliz e uma relação pautada na violência. Minha avó era faxineira e meu avô porteiro de um prédio. Tiveram 5 filhos e todos moravam juntos num cubículo. Minha mãe, a mais velha dos 5, foi responsável desde cedo por cuidar da casa, da comida, trocar fraldas e por educar os irmãos mais novos. Com 15 anos ela era a única figura materna que meus tios tinham. Dá para perceber que ela nunca teve ninguém que cuidasse dela, só quem gritasse, ninguém que desse carinho, só quem desse bronca, e que assumiu responsabilidades absurdas para alguém que ainda era uma criança.

Não é à toa que minha mãe tenha uma noção tão errada do que seja cuidar. Ela não acredita que cuidar é dar apoio, suporte, ajuda, carinho. Para ela cuidar é dar o que comer. Como seus pais nunca fizeram nada por ela, ela acha que se sacrificar diariamente pelos filhos é prova de amor. E que isso mais do que basta. Ela acha que deu o seu melhor, e de fato talvez tenha dado, mas eu e meu irmão nos sentimos até hoje totalmente largados no mundo.

Depois de identificar a mãe que deu origem ao seu complexo materno, Clarissa descreve qual é a mãe que criar para substituir a mãe que está dentro da nossa psique: a Mulher Selvagem.

A MÃE FORTE, A PROLE FORTE: “Em vez de nos desapegarmos da mãe, estamos procurando uma mãe selvagem. Não vivemos e não podemos viver separadas dela. Nosso relacionamento com essa mãe da alma deve girar sempre, mudar, transformar-se; e ele é um paradoxo. Essa mãe é a escola na qual nascemos, a escola na qual aprendemos, a escola na qual ensinamos, tudo ao mesmo tempo e pelo resto das nossas vidas. Quer tenhamos filhos, quer não, quer cuidemos do jardim, das ciências, das tormentas da poética, sempre nos depararemos com a mãe selvagem em nosso caminho para qualquer lugar. E é assim que deve ser.”

“É esse o modelo psíquico e a esperança para aquelas que tiveram pouco ou nenhum cuidado materno, bem como para as que sofreram cuidados torturantes. Muito embora a mãe de certo modo esteja acabada, muito embora ela não tenha mais nada a oferecer, os rebentos irão sei desenvolver, crescer independentes, e ainda vicejar.”


Lição do Dia: buscando as orientações da Mulher Selvagem para me guiarem no caminho.

Pendências: Amanhã é dia de uma nova lista de mudança de hábitos!

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quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Dia 34 – Você é diferente?

Capítulo 6 – A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma bênção

Conto: O patinho feio

A rejeição à criança diferente

“As meninas que demonstram ter uma forte natureza instintiva muitas vezes passam por sofrimentos significativos no início da vida. Desde a época em que são bebês, são mantida presas, domesticadas, e ouvem dizer que são inconveniente ou teimosas. Suas naturezas selvagens revelam-se bem cedo. Elas são curiosas, habilidosas e possuem excentricidades leves de vários tipos, características estas que, se desenvolvidas, constituiriam a base para sua criatividade para o resto das suas vidas. Considerando-se que a vida criativa é o alimento e a água para a alma, esse desenvolvimento básico é de importância dolorosamente crítica.”

Já se perguntaram qual é a razão para ainda existir feminismo no mundo? Afinal, hoje as mulheres podem votar, trabalhar, usar calças e optar por não ter filhos. Eu respondo por quê: embora o mundo pareça nos dar livre arbítrio para escolher o que queremos, ainda nos julga caso a gente resolva não seguir o caminho tradicional.

Eu sinto na pele o machismo que ainda existe no mundo. Nos dizem como devemos nos vestir, que peso deveríamos ter, quais as carreiras mais combinam com a gente. Sempre tem um certo ar de ameaça caso a gente não siga as regras: faça tatuagem, mas você não vai conseguir o emprego que quer. Coma carboidrato, mas o príncipe encantado não vai se apaixonar por você. Trabalhe na noite, mas você não vai conseguir construir uma família. Seja educada, boazinha, feminina, delicada, ou vai acabar solteira. Gente, isso não é conselho, o nome disso é MALDIÇÃO!

Pessoas que fazem isso estão na verdade amaldiçoando a nossa vida caso a gente saia da linha. Desde que eu era pequena escuto as pessoas fazendo comentários aparentemente inocentes, mas que no fundo estão julgando meu comportamento e me dizendo como eu deveria me portar.

Cena 1: lembro de uma vez que sai de uma festa de formatura e fui direto para a ceia de natal da minha família. Chegando lá uma tia, que eu nunca consideraria um modelo de mulher, me puxou para o canto e disse: ‘Ah, você está tão bonita de saia! Nunca usa nenhum vestido! Gosto muito de ver você se arrumando assim!’.
Legenda: espero que você se sinta valorizada por estar vestida de ‘menina’ e que na esperança de continuar sendo notada, continue se fantasiando de boneca.

Cena 2: meus pais recebem amigos em casa. Eu adolescente vestindo meus costumeiros jeans, regata e all star. Uma amiga do meu pai olha para mim e diz como se eu não estivesse presente: ‘Ela está na fase de se vestir como menino ainda? Daqui a alguns anos ela vai perceber que os meninos vão preferi-la de salto alto!’.
Legenda: escute meu conselho garota, se você planeja ter um namorado na vida vai ter que aprender a se vestir como os homens gostam e não como você gosta.

Cena 3: com um namoradinho. Ele vira para mim tentando me elogiar: ‘Ah, você não usa maquiagem porque é uma gata, se fosse feia ia andar toda produzida por aí.’
Legenda: as mulheres que não nasceram com os atributos apreciados pelas revistas têm a obrigação moral de sentir vergonha pelos seus verdadeiros traços.

Cena 4: cheguei na casa da minha mãe depois de fazer a minha primeira tatuagem. Ela levanta minha blusa e diz: ‘Uf! Se você queria tanto se tatuar não entendo porque não fez uma borboletinha delicada em cores bebês!’
Legenda: se você fizer questão de sair do estereótipo, pelo menos faça algo que a torne mais delicada e fofa.

Cena 5: minha mãe pergunta porque terminei meu relacionamento, eu respondo que devido à nossa diferença de idade, ele já está na fase de querer ter filhos e eu ainda não. Ela com os olhos arregalados vira para mim e diz: ‘Por causa disso? Uma hora ou outra você vai ter filhos, porque não agora já que isso é tão importante para ele?’.
Legenda: filhos são o objetivo de qualquer mulher, assim como arrumar um bom homem que sonhe em constituir família. Se esse é o objetivo final, não vale a pena perder um homem por causa dos seus planos passageiros.

Cena 6: meu ex-sogro dizendo o que achou de mim para o filho, meu então namorado: ‘Está vendo? Não apanhou quando era pequena, olha só o que aconteceu com ela!’
Legenda: os pais são responsáveis por modelar o comportamento das filhas, nem que precisem usar a força para isso.

Cena 7: uma amigo me dando conselhos profissionais: ‘Vero, o problema é que você é autêntica demais!’
Legenda: se suas idéias e valores fugirem do comum, fique quietinha.

“Quando isso acontece, a menina começa a acreditar que as imagens negativas dela mesma, refletidas pela família e pela cultura em que vive, são não só totalmente verdadeiras mas também totalmente isentas de preconceito, de influência da opinião e de preferências pessoais. A menina começa a acreditar que ela é fraca, feia, inaceitável, e que isso continuará a ser verdade não importa o esforço que ela faça para reverter a situação.”

Porque precisamos que alguém de fora nos dê importância? Porque nos moldamos à opinião alheia para sermos notadas? Porque raios nós vamos procurar no mundo externo coisas que nos agreguem valor?
‘Ela é dona da própria empresa, mas não conseguiu casar, coitada!’
‘Ela ganha bastante dinheiro com a própria arte, mas não é uma tragédia que não tenha filhos?’
‘Ela é tão independente, é por isso que os homens não se aproximam dela!’
‘O marido dela não é tão legal, mas ela não vai encontrar coisa melhor!’
‘Como ela engordou! Ainda bem que já está casada!’
Se você é mulher e costuma fazer esse tipo de comentário depreciativo sobre outras mulheres, PARE AGORA! Você está contribuindo para domesticar toda a força selvagem que temos dentro de nós!

“Em muitas culturas, existe uma expectativa, quando nasce uma filha, de que ela é ou será um certo tipo de pessoa, que aja de um certo modo consagrado pelo tempo, que siga um certo conjunto de valores que, se não forem idênticos aos da família, pelo menos se baseiem nos valores da família, e que seja como for não abale os alicerces.”

“Quando a cultura define detalhadamente no que consiste o sucesso ou a perfeição desejável sob qualquer aspecto — na aparência, na altura, na força, na forma física, no poder aquisitivo, na economia, na masculinidade, na feminilidade, na atitude de bom filho, no bom comportamento, na crença religiosa — existem ditames correspondentes e tendência à avaliação na psique de todos os seus membros. Portanto, as questões da mulher selvagem rejeitada geralmente são duplas: a íntima e pessoal, a externa e cultural.”


Lição do Dia: rejeitando todos os comentários opressores que escutei durante a minha vida.

Pendências: hoje consegui acordar mais cedo do que o costume e organizar coisas pendentes. Que orgulho! : )

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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Dia 33 – Essa é minha família?

Capítulo 6 – A procura da nossa turma: A sensação da integração como uma bênção

Conto: O patinho feio

A descoberta daquilo a que pertencemos

“‘O patinho feio’ tem muitas versões, todas contendo o mesmo núcleo de significado; mas cada uma, cercada de diferentes enfeites e franjas que refletem o meio cultural da história bem como o talento poético de cada narrador.”

A história do patinho feio foi uma das primeiras histórias que li inteira sozinha, há décadas atrás, quando me alfabetizei. Mas, desde pequena, a história me parecia meio boba. Sempre achei que a moral dessa história fosse algo do tipo ‘você é especial’, mas peraí, todo mundo é especial! Então seria uma história de esperança para os rejeitados?

Fiquei perplexa quando li essa história na narrativa de Clarissa. Primeiro porque a versão que ela compartilha é bem mais longa e detalhada das versões que tive contato. Segundo, porque pela primeira vez entendi a interpretação do conto, e me emocionei!

A história do patinho feio não é uma história de vencer a luta contra a rejeição. Não. A história é sobre a busca pelo nosso verdadeiro grupo, pela nossa verdadeira família, pelo nosso verdadeiro lar.

Fiquei chocada quando a autora começa o capítulo dedicando o conto às mulheres que nunca se sentiram parte de sua família ou de sua cultura, porque eu sempre me senti assim. Se a história da cegonha fosse verdadeira, não teria nenhuma dúvida de que a cegonha que me levava me deixou na janela da família errada. Não estou aqui dizendo que família não é importante, ou que a minha seja do mal. Só estou dizendo que mesmo eles sendo importantes, nem sempre você consegue verificar qualquer afinidade entre você e seus parentes.

E comigo é assim. Quando completei 18 anos cortei voluntariamente as relações com a minha família paterna. Com 25 cortei as relações com a família materna. Hoje, olhando para minha mãe identifico nela uma genitora que amo, mas isso nunca vai nos fazer semelhantes. E essa absoluta falta de afinidade com as pessoas mais próximas a mim faz com que eu me sinta meio órfã, meio abandonada, meio sem ninguém no mundo.

Por isso, desde que me tornei adulta invisto grande parte do meu tempo em criar uma família para mim. Uma que não vai ser composta de pais, irmãos e avós, mas sim de grandes amigos dispostos a dividir uma vida ao meu lado. Como vi alguns anos mais tarde, isso é muito mais difícil do que parece. Primeiro porque às vezes nos aproximamos de pessoas que só se parecem conosco por causa de um determinado momento de vida. Segundo, porque hoje em dia as pessoas perderam a noção de uma amizade para a vida toda, com a lealdade e o carinho necessários para apoiar o outro nos momentos mais difíceis. Hoje é fácil ter amigos de ‘trabalho’, de ‘balada’, de momento. E não era bem isso que eu estava interessada...

Como ainda busco minha verdadeira família, a história do patinho feio se tornou uma das mais belas para mim. Vamos acompanhar ao longo dos próximos dias a história do patinho exilado que corre o mundo em busca do seu verdadeiro lugar.

“Os significados básicos que nos interessam são os seguintes: o patinho da história simboliza a natureza selvagem, que, quando forçada a enfrentar circunstâncias pouco propícias, luta instintivamente para continuar viva apesar de tudo. A natureza selvagem sabe instintivamente agüentar e resistir, às vezes com elegância, às vezes sem muito estilo, mas resistindo assim mesmo. Graças a Deus por esse aspecto. Para a mulher selvagem, a continuidade é uma das suas maiores forças.”

“O outro aspecto importante da história é o de que, quando a vibração específica da alma de um indivíduo, que tem tanto uma identidade instintiva quanto uma espiritual, é cercada de aceitação e reconhecimento psíquico, a pessoa sente a vida e a força como nunca sentiu antes. Descobrir com certeza qual é a sua verdadeira família psíquica proporciona ao indivíduo a vitalidade e a sensação de pertencer a um todo.”

“Certifique-se agora de perder menos tempo com aquilo que eles (seus pais) não lhe deram e de dedicar mais tempo à procura das pessoas com quem você se sinta bem. Pode ser que você não pertença absolutamente à sua família original. Você talvez combine com eles em termos genéticos, mas quanto ao temperamento você pode pertencer a um outro grupo. Ou quem sabe você não pertença à sua família apenas superficialmente enquanto sua alma escapa, corre pela estrada afora e satisfaz sua gula mordiscando petiscos espirituais em outras plagas?”

Lição do Dia: voltando a procurar o meu lugar no mundo.

Pendências: ajudando os comprimidos fazerem efeito com muito brócolis na veia.

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